O regresso à barbárie é sempre possível.
Nenhuma conquista histórica é irreversível.
Edgar Morin, filósofo
O mês de junho foi declarado oficialmente, em Toronto, o mês do Património e da Herança Portuguesa (Portuguese-Speaking Heritage Month) e, a nível federal, expandiu-se a todo o Canadá. É, por isso, o mês em que toda a Comunidade Portuguesa e Luso-canadiana congrega esforços para celebrar a sua herança através de vários eventos que se realizam um pouco por toda a parte, culminando com o tradicional desfile – momento alto dos festejos – por uma das importantes artérias de várias cidades.
As entidades oficiais canadianas não ficam indiferentes à data e, este ano, o ministro federal Marc Miller assinalou-o através de uma mensagem em que destaca o contributo histórico e contínuo da comunidade luso-canadiana para o desenvolvimento do país. Elogiou a coragem, resiliência e dedicação das famílias portuguesas que ajudaram a construir o Canadá, destacando o seu impacto nas áreas da cultura, educação, ciência, empreendedorismo, desporto e vida comunitária. Não se ficou, contudo, apenas pelos elogios, tendo convidado todos os canadianos a participarem nas celebrações. Este é um bom exemplo de como um governante sabe exaltar a força de uma comunidade estrangeira como parte integrante do tecido humano do seu país, expressão máxima de uma política de inclusão.
Noutra geografia, o Presidente da República de Portugal iniciou as comemorações do Dia de Portugal no Luxemburgo, exemplo de um país da Europa que soube acolher os portugueses, hoje um terço da população estrangeira. Tratando-se de uma das comunidades mais importantes e mais dinâmicas da nossa diáspora, ela constitui já uma parte indissociável da própria identidade do Luxemburgo, como foi reconhecido por ambas as partes nos discursos oficiais. O português, segundos dados estatísticos, é já a segunda língua mais falada.
Assim, ao falarmos da palavra “herança” em contexto diaspórico, rapidamente concluímos que esta pouco tem a ver com os bens materiais, já que o maior legado que podemos deixar é de caráter imaterial, ou seja, constituído por valores, princípios e memórias transmitidos de geração em geração e que moldam as gerações futuras.
Por coincidência, recebi também a Descendências Magazine, uma revista de referência das Comunidades Portuguesas e Lusófonas. O seu editorial começava: “Junho é o mês em que Portugal se olha ao espelho.” É uma bela metáfora, mas talvez não seja tão bela a imagem que o espelho nos devolve, considerando que contraria tudo quanto ao longo de séculos tão bem soubemos fazer - acolher. Numa das mais célebres visões da alma lusitana, Fernando Pessoa, em 1923, declarou: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.” A nossa história comprova-o, mas, se quisermos ser mais objetivos, e fizermos um estudo sério do nosso genoma, depressa concluiremos da enorme variedade de material genético que contém todas as nossas informações hereditárias que não se limitam a uma só identidade. E essa sempre foi a nossa maior riqueza – a de fazer da variedade um todo que nos une numa vocação universalista.
Perante estes exemplos – Canadá e Luxemburgo –, e muitos outros haveria, não se percebe que, em Portugal tenha decorrido, numa quinta da Figueira da Foz, “A Cimeira do Ódio” (título do Expresso), em que os os participantes, portugueses e estrangeiros ligados a partidos de extrema direita, fizeram intervenções perfeitamente identificadas com os ideais nazis. Por entre os ruidosos aplausos dos presentes, não tiveram quaisquer pruridos em propagar mentiras, divulgar vídeos e dados falsos sobre crimes e outros atos perpetrados por certos imigrantes, advogando a supremacia da raça branca.
Edgar Morin deixou-nos há poucos dias. Tinha 104 anos, mas foi com 102 que, extremamente lúcido veio a Lisboa proferir uma conferência sobre o estado do mundo, e é dele a epígrafe “O regresso à barbárie é sempre possível”. Apesar de ser uma otimista militante, temo que, no meu país, os primeiros passos a caminho da barbárie já estejam a ser dados.