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A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Bíblia

CAMILO PESSANHA - (Coimbra, 19/12/1867 – Macau, 1/3/1926).  Filho ilegítimo de um estudante de Direito, a sua origem familiar pesará na consciência do poeta, ao longo da vida, considerando a casa familiar como “o poço de miséria e de dor”. Formado em Direito, trabalha em Mirandela e Óbidos, partindo para Macau em 1894, exercendo a atividade de professor de Filosofia no recente Liceu de Macau, conservador do Registo Predial de Macau e como juiz no Tribunal de Macau. A sua vida em Macau é marcada pelo amor à arte, dedicando-se ao estudo da cultura chinesa e da arte oriental, mas ao mesmo tempo marcada pelo vício do ópio, pela doença, pelo estado psicológico de abulia, num contínuo processo de degradação física e psicológica, que as deambulações pela cidade de Macau tornaram lendárias.

Os poemas que foi escrevendo circulavam de mão em mão, mesmo entre a geração do Orpheu que o considerava uma espécie de figura mítica. A única obra publicada em vida de Camilo Pessanha foi Clepsydra, pela mão da sua amiga, Ana de Castro Osório em 1920. Já depois da sua morte foram feitas novas edições, a que se acrescentaram outros poemas do poeta, em 1945, 1954, 1969. A Clepsydra, relógio de água para marcar o tempo, ganha um sentido conotativo, metáfora da transitoriedade da vida, a passagem do tempo e da vida, a inevitável aproximação da morte, características representativas do próprio Simbolismo.

Camilo Pessanha tornou-se o principal representante e mestre do Simbolismo (1890-1015), deslocando o foco da arte para o mundo interior do homem, procurando captar o inconsciente, recorrendo à linguagem símbólica e musical, focando-se no poder sugestivo das imagens e na combinação rítmica da palavra, à procura da musicalidade.



Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
   Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
   Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é um cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, - a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei-de o levar.
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar…

***

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos…

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.

***

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro…
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro! …

Trémulos astros…
Solidões lacustres…
-: Lemos e mastros…
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

(Camilo Pessanha, Clepsydra,  ASSÍRIO & ALVIM, 2005)