Cardus Edição 145, maio 2025
EUGÉNIO LISBOA - (Lourenço Marques/Maputo, 1930 – Lisboa, 2024). Ensaísta, crítico literário, poeta.
Obra Poética: A Matéria Intensa (1985); O Ilimitável Oceano (2001); Poemas em Tempo de Peste (2020); Poemas em Tempo de Guerra Suja (2022); Soneto Modo de Usar (2024).
Os Frutos da Guerra
O horror tornou-se quotidiano,
a destruição transformou-se em hábito,
o mundo foi ficando kafkiano,
o morrer, agora, volveu-se súbito,
as lindas crianças servem de alvo,
e os olhos das mães gritam de espanto!
Se nada do que temos está a salvo,
Fina-se a fala e também o canto.
A morte agora veste-se de aço
e vomita incêndios majestosos:
volatiliza com desembaraço
o museu, o palácio esplendoroso,
o hospital, o armazém, a praça
e tudo quanto o horror devassa!
O Uso das Palavras
(dedico este poema
ao futuro carrasco de Putine)
Canta a guerra quem não vai à guerra
e vai à guerra só quem a não canta:
quem é pela guerra a verdade enterra
e a mentira, em solo fértil, planta.
Com a mentira, os que não morrem matam
os que morrem antes de terem vivido.
Com as palavras, eles arrebatam
quem nelas não vê o vero sentido.
Com palavras, se mata e se morre,
que as palavras são balas também:
das palavras, há sangue que escorre,
visto que balas não poupam ninguém.
Com as palavras, tudo se obtém,
dão-nos o sublime e o horror também!
O Coração das Trevas Revisitado ao ver as Ruínas de Bucha
Corpos no meio da estrada, já frios,
as mãos amarradas atrás das costas,
o horror, o horror dos calafrios…
Que de perguntas, todas sem respostas!
A condição humana em juízo,
e que de horríveis suspeitas à solta!
Então somos isto? Será preciso
tanta barbaridade à nossa volta?
Será que Mistah Kurtz teve herdeiros,
os quais por toda a parte semearam
horrendos e sangrentos paradeiros?
Dir-se-á que nos homens aterraram
demónios nunca antes conhecidos,
oriundos de infernos desmedidos!
(Eugénio Lisboa, poemas em tempo de guerra suja, Editora Guerra & Paz, 2022)
“Nenhum dos grandes livros que se escreveram contra a guerra, ao longo dos séculos, evitou jamais que uma nova guerra se travasse, com o habitual cortejo de ruínas, mortos e mutilados. Nas guerras vence-se, mas não se ganha. Há sempre um vencedor, um vencido e dois perdedores.
Há uma grande literatura contra a guerra, feita por gente bem-intencionada e talentosa, que julga que, mostrando quão horrorosas são as guerras, poderá evitar guerras futuras. Tem-se visto que nada têm conseguido. A eles me junto agora, sabendo muito bem que estou a empurrar para cima o penedo de Sísifo, que voltará a tombar, assim oferecendo à comunidade um serviço inútil. Mas fica-nos este absurdo privilégio - ético, mas sobretudo estético – de sabermos não desistir.
Lutemos, então, mesmo sabendo que vamos perder, juntamente com aqueles que julgam que vão ganhar.”
(Eugénio Lisboa, poemas em tempo de guerra suja, Editora Guerra & Paz, 2022)