Home Cardus Edição 151, novembro 2025

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Bíblia

(ANA) PAULA TAVARES – (Huíla – Angola 1952). Mestre em Literaturas Brasileiras e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (Universidade de Lisboa); Doutorada em Antropologia da História (Universidade Nova de Lisboa). Professora Convidada da Faculdade de Letras (Universidade de Lisboa). Prémio Camões 2025.

A poesia de Paula Tavares alimenta-se “da seiva da terra, mãe-origem de tudo. Tem raiz fincada no solo africano, mas, ao mesmo tempo, voa por outros espaços. O olhar poético apreende as areias e os silêncios do deserto do sudoeste angolano,” perseguindo os cheiros e os paladares da terra. “Capta as águas do lago, do lago e da lua, e as águas do rio, atingindo a terceira margem, onde fluem o tempo e a linguagem.” Poetisa a preservação das tradições, os espaços de preces, de juramentos, os provérbios ancestrais africanos de diferentes etnias, os rituais de povos pastores.

A poesia de Paula Tavares, uma das vozes femininas mais importantes, é uma escrita em qua “a voz da mulher se faz ouvir na sua individualidade e na sua feminilidade,” com os seus desejos e frustrações, as suas aspirações e sonhos, as suas alegrias, dores e sensações, criticando as práticas autoritárias em relação às mulheres.

Obras de poesia: Ritos de Passagem (1985); O Lago da Lua (1999); Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001); Ex-Votos (2003); Manual para Amantes Desesperados (2007); Como Veias Finas na Terra (2010); Amargos como os Frutos (2010); Poesia Reunida seguido de Água Selvagem (2023).



A CHUVA

TALVEZ O PRINCÍPIO fosse a chuva assim descendo
sobre a terra para a cobrir de lama fértil e cogumelos.
A chuva costuma anunciar-se de longe e avança sobre
a distância ligando o chão gretado da seca e dos tem-
pos. A chuva sara o próprio ar e é mãe, pai, teto, tem-
plo para todos os viventes grandes e pequenos. Cai
sobre a terra ávida vinda não se sabe bem de onde e
lambe-lhe as cicatrizes até criar vida de novo a cada
ciclo de vento e terra.
De onde eu venho a chuva usa uma voz fininha para
falar uma língua de sopros, rente-ao-chão e faz crescer
com a lava dessa voz o mundo em volta. Os miúdos
aprendem cedo a conhecer os sons da fala, a forma
como muda na dobra do vento. Bebem dela a ciência
da sede e esticam as asas sob a sua cortina de pérolas.

 

CANTO DE NASCIMENTO

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.   

As mãos criam na água.
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças de leite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.
Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio

Enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

 

para a Ana

A ternura tem som, riso e lágrimas
muda de estado e dilata-se
ferve a 380° centígrados
está orientada em grados

              Encontra-se em forma pura
              Em locais próximos
              mas
              de acesso difícil
              a automóveis de estimação

Em estado selvagem não morre:
               cresce
               reproduz-se
               transforma-se

               Cercada
                    cristaliza,
                    emudece
                    perde o brilho

Esvai-se aos poucos, até ao fim.

(Paula Tavares – Poesia Reunida seguido de Água Selvagem, 2023)