Cardus Edição 143, março 2025

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Maria Teresa Horta

MARIA TERESA HORTA - (Lisboa, 1937 – Lisboa, 2025). Dedicou-se ao jornalismo, ativista dos direitos da mulher, escritora, cultivando, na atividade literária, a poesia e o romance. Maria Teresa Horta, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, escreveram Novas Cartas Portuguesas (1972), obra que provocou uma agitação e uma revolução. Livro proibido pela censura do Estado Novo, as autoras foram objeto de um processo judicial, sendo acusadas de terem escrito uma obra de conteúdo pornográfico e atentatório da moral pública; obra inspirada nas Lettres Portugaises, atribuídas a Soror Mariana Alcoforado (século XVII), denuncia a condição social da mulher na cultura portuguesa. Maria Teresa Horta sentiu na pele, no corpo e no espírito a perseguição de uma sociedade que subalternizava a mulher.  A obra, e a sua poesia em particular, é um grito de libertação, expresso numa linguagem apaixonada, pela afirmação do corpo e da sexualidade, do amor e do desejo, a fruição dos sentidos e vincando o papel social da mulher. A sua literatura erótica tem as marcas da Antiguidade Clássica (Safo e Ovídio), do Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento (da Bíblia) e influências das cantigas de amigo medievais.

A BBC, em 2024, colocou-a entre as 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.

Algumas das suas obras poéticas: Minha Senhora de Mim (1971), As Palavras do Corpo [antologia] (2012), Anunciações (2016), Poesis (2017), Estranhezas (2018), Eu Sou a Minha Poesia [antologia] (2019), Paixão.





ARREBATADA

Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada

Quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada

Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo da navalha que nos mata

Quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa  faminta  apaixonada

Eu não quero só o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz

Eu quero a lava

 

RESISTÊNCIA

Ninguém me castra a poesia
se debruça e me põe vendas
censura aquilo que escrevo
nem me assombra os poemas

Ninguém me apaga os versos
nem amordaça as palavras
na invenção de voar
por entre o sonho e as letras

Ninguém me cala na sombra
deitando fogo aos meus livros
me ameaça no medo
ou me destrói e algema

Ninguém me aquieta a escrita
na criação de si mesma
nem assassina a musa
que dentro de mim se inventa


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