“Luís de Camões nasceu em 1524 ou quando muito em 1525, quando uma revolução cultural estava a ocorrer. Cada navio que lançava ferro no porto de Lisboa representava a chegada de um manancial de informações acerca de regiões, povos, raças, costumes, animais, plantas que o Ocidente não conhecia, ou de que os portugueses iriam oferecer notícias muito mais exatas, fazendo vacilar certezas averbadas nos livros ou obrigando a modos de interpretar. Com cada lugar descoberto, a ciência progredia, os conhecimentos científicos aumentavam, os horizontes mentais expandiam-se, provando que o mundo era muito diferente e muito maior do que tinham dito os Antigos.”
“Faria e Sousa elencou o que considerava serem as principais virtudes de Camões: constância, amor da pátria, cuidado em celebrar os beneméritos, “aun ofendido delos”, desprezo da lisonja, rancor às baixezas (…); não possuíra nenhum grande vício; apenas pequenos defeitos, como o de ter sido “dado a los amores, i a mujeres, no caso”, esclarecendo que “no se lo supo que tuviese hijo alguno”.
“Seria compensado (por D. Sebastião) com uma mercê régia, que lhe atribuiria o título de cavaleiro fidalgo e uma tença anual de quinze mil réis, a ser paga durante três anos (alvará de 28 de julho de 1572).”
“Eu el-rei faço saber que este alvará virem que, havendo respeito ao serviço que Luís de Camões, cavaleiro fidalgo de minha casa, me tem feito nas partes da Índia por muitos anos e aos que espero que em diante me fará, e à informação que tenho do seu engenho e habilidade e à suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da Índia, hei por bem e me apraz fazer-lhe mercê de quinze mil reis de tença em cada um ano por tempo de três anos somente, que começaram de doze dias do mês de março deste ano presente de 1572 em diante que lhe fiz esta mercê, e lhe serão pagos no meu tesoureiro mor, ou em quem seu cargo servir, cada um dos ditos três anos, com certidão de Francisco de Sequeira, escrivão da matrícula dos moradores de minha casa de como ele, Luís de Camões, reside em minha corte.”
(Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte, Biografia de Luís Vaz de Camões, Contraponto, 2024)
Camões, grande Camões, quão semelhante
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co sacrílego gigante.
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céo, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.
(Bocage, Rimas, 1791)
“Fogo que arde sem se ver”
Aquilo que ouço não me esclarece: então,
é isso que entendes por amor, como se fosse,
a mais simples das coisas – desde
que, na sua formação não entrem os
sentimentos? Algo de abstracto, sem os
corpos que dão forma ao próprio
conceito? Camões, nos sonetos, tratou
disso; e tenho pena de os ter
levado tão a sério, a esses tímidos versos,
carregados de eufemismos e metáforas. Porém,
pode dizer-se o amor de outro modo? E poderá
ele ser ensinado, o amor que só se aprende
na dúvida dele próprio, escondendo as
emoções, e também as fraquezas, com a hesitação fria
das palavras que o declaram? Agora, porém, o amor
é outra coisa: esta entrega que nos prende,
esta renúncia que se diz sem o ser, este ir
de um para o outro enquanto se volta a página
e o poema te substitui. Então, não é
outra coisa o que Camões nos disse; e ao explicá-lo,
levando a sério oposições e antíteses, toda
a contradição se desfaz. A tua ausência tem
a forma desses catorze versos; os teus lábios
ardem nas suas rimas; os teus dedos enchem o vazio
entre cada estrofe, obrigando-me a contar
por eles sílabas, quadras e tercetos, enquanto
a chuva cai – água e fogo nos teus braços,
música de piano que toca sem se ver.
(Nuno Júdice, Cartografia de Emoções. Publicações Dom Quixote, 2001)
CAMÕES E A TENÇA
Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre sobejaram
A que ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
(Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, Caminho, 1999)
Descalça vai para a fonte
Discalço ta vai fónte,
Leonor pisá chám esverdeado;
Quelê formosa, ta vai co cuidado.
Na cabéça unga pote piquinino,
Na mám di prata su támpa;
Cinta di chita vemêlo fino
Co saia di séda estampada,
Colete di tudo dia vestido,
Más bránco qui neve caído,
Quelê formosa, ta vai co cuidado.
Xale abrí, mostrá piscoço
Co tránça di cabêlo dorado
Prendido co listám sedoso.
Di bunita qui mundo ficá espantado.
Caído nêle tanto doçura,
Pa dá graça su formosura,
Quelê formosa, ta vai co cuidado.
(José dos Santos Ferreira, Papiaçám di Macau, Fundação Macau, 1996)