Home Cardus Edição 149, setembro 2025

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Bíblia

ARMANDO DA SILVA CARVALHO - (Óbidos, 1935 – Caldas da Rainha, 2017). Poeta, novelista, ensaísta, tradutor, colaborador em jornais e revistas. Em termos profissionais exerceu advocacia, foi professor e publicitário. “Poeta ácido, lúcido, erótico, político”. A sua poesia é “essencialmente anti-lírica e refratária a todas as formas de expressão subjetiva”. Com um estilo mordaz e sarcástico, denuncia as hipocrisias sociais e políticas.

Algumas das suas obras de poesia: Roteiro Sentimental (2000), Sol a sol (2005), O Amante Japonês (2009), Anthero Areia & Água (2010), De Amore (2012), A Sombra do Mar (2015), …



CONTRATOS À LUZ DAS VELAS

Do pouco que ainda me espanta nesta vida
fica um lugar ambíguo
para essa multidão de peregrinos
que vai dar a Fátima.
A tosca imagem, miudinha e pobre, infantilizada,
deve ser um sinal,
uma marca, para o todo o absoluto dos desejos,
para tudo o que não é mas deseja ser.
Um alvo de universos no mais recolhido coração
de cada criatura, de vela acesa na mão,
e nos lábios a repetida melopeia
do apelo.

Ali o deus principal não tem qualquer lugar,
Cristo é uma personagem secundária, quase um figurante,
é apenas alguém que faz renascer a mãe primeira,
doadora de bens, saúde, a que perdoa,
protege e não exige nada,
a que não define nada, nada prega,
e nem tem uma doutrina para se entrar no céu.

Entre as línguas da fé esta fixação
numa imagem primária, maternal, remota,
remonta ao mais terreno, regressa ao natural da vida,
é o avesso da morte,
do trágico, age por contrato.
E toda a cova da iria se transforma num gigantesco regaço,
no colo debruado por luzes e por rogos,
na imensidão dum seio.

Os anos vão me dando estes baixos delírios
de um pensar redondo,
rasteiro, rente ao cão e à carne, tresmalhado.
Pesado de paixão.
Com ele vou seguindo estas cenas arcaicas,
quase intransmissíveis.
Não são só as mulheres, sedentas de prodígios,
há homens de meia-idade,
de rosto grave e duro e talhado à faca.
É muita gente junta a pretender salvar-se,
ou pelo menos salvar algo de concreto e que lhe diz respeito.

Lembro-me de ter lido um dia que um poeta
Ainda soviético
Ficara deslumbrado com toda a cerimónia.
Lembrava-lhe o temor,
a força arrebatada pela crença, o transe colectivo    
dos mujiques, de rastos, almas trespassadas
E vivas ainda,
por essa santa loucura russa
que também destruiu o frágil coração de Rilke.
Não é tanto o milagre, mas a espera dele,
Essa prestação que tão certeira fere
as contas da alma e os transportes do corpo.
De joelhos, duras caminhadas, um preço arrancado
ao percurso,
e àquela fogueira de velas tão sinistra.

Essa luz brutal
que por fim se torna confidente
nas mãos de cada um.

(Armando da Silva Carvalho, A Sombra do Mar. Assírio & Alvim, 2015

A Chave inglesa

Era um corpo inteiramente
português.
Transido de ternura
o óleo das suas mãos
protegia-me
o coração.
Não sei que mecanismo
despertava em si
quando corava,
fazia crescer a relva,
meus dentes indecisos
como crias
corriam e devoravam.
Escreveu-me duas cartas
Em cima de um tractor
E nelas descrevia
Em frases simples
o modo tortuoso
que me fez traidor.

(Armando da Silva Carvalho)