Cardus Edição 144, abril 2025

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Bíblia

Eclesiastes - O livro do Eclesiastes é uma obra do Antigo Testamento da Bíblia, é uma reflexão filosófica sobre a existência humana, a natureza efémera da vida e a procura incessante de significado. A repetição cíclica da vida, tudo vai e vem, destacando a vaidade das atividades humanas, sem um propósito mais profundo (“vacuidade de vacuidades: todas as coisas [são] vacuidade”). Com um cunho moral salienta a importância de viver sabiamente, mas com humildade e aceitação das limitações da vida humana, vivendo quotidianamente com prudência e com diligência, pois todo o homem enfrenta o mesmo destino, a morte.

Cântico dos Cânticos – “Quem se depare com o Cântico dos Cânticos noutro contexto que não o da Bíblia não hesitará em ver aqui uma coletânea de poesia erótica.”
É um texto poético do qual o nome de Deus está ausente e que ostenta como tema o “amor sem problemas”. O Cântico dos Cânticos é um poema lírico de tema amoroso que celebra encontros e desencontros entre dois amados, dando-lhes a palavra de forma alternada, num diálogo estruturado em forma narrativa e de encenação teatral, mas a maioria das frases contidas no Cântico dos Cânticos provém de uma voz falante feminina quando na Bíblia as vozes falantes são esmagadoramente masculinas.
Podem assinalar-se algumas características estilísticas próprias, como, por exemplo, o uso dos termos “irmão” e “irmã” para designar o amado e a amada, as referências ao corpo do amado ou da amada como motivo de contemplação estética, ou a escolha do “jardim” como lugar e enquadramento do amor.  





Para todas as coisas [há] um tempo;
E [há] um tempo para todo o assunto debaixo do céu.
Tempo de dar à luz e tempo de morrer;
Tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado;
Tempo de matar e tempo de curar;
Tempo de deitar abaixo e tempo de construir;
Tempo de chorar e tempo de rir;
Tempo de estar de luto e tempo de dançar;
Tempo de atirar pedras e tempo de juntar pedras;
Tempo de abraçar e tempo de estar longe de um abraço;
Tempo de procurar e tempo de perder;
Tempo de guardar e tempo de atirar fora;
Tempo de rasgar e tempo de coser;
Tempo de calar e tempo de falar;
Tempo de amar e tempo de odiar;
Tempo de guerra e tempo de paz.

(Eclesiastes – In Bíblia, Volume IV – trad. Frederico Lourenço)

 

Eis que és bela, ó minha propínqua, eis que és bela!
Teus olhos são pombas,
Fora do teu silêncio.
Teu cabelo é como rebanhos de cabras
Que foram revelados a partir de Galaad.
Teus dentes são como rebanhos de ovelhas tosquiadas
Que saíram do banho;
Todas elas estão a parir gémeos
E nenhuma delas estéril.
Como um fio de escarlate são os teus lábios;
E a tua fala é bonita.
A tua face é como uma casca de romã,
Fora do teu silêncio.
Como a torre de David [é] teu pescoço,
Construída em Talpioth.
Dela estão dependurados mil escudos
[E] todos os dardos dos nobres.
Teus dois seios são como gamos gémeos de uma gazela
Que pastam no meio dos lírios.
Até que o dia respire e se movam as sombras,
Irei sozinho para a montanha da mirra,
Para o monte de incenso.
És toda bela, ó minha propínqua, e não há defeito em ti.

(Cântico dos Cânticos – In Bíblia, Volume IV – trad. Frederico Lourenço)