Cardus Edição 143, março 2025

CINEMA

Edmundo

Pedro Cheque é jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É crítico de cinema e novo membro do CARDUS


CHOCOLAT (1988)

Claire Denis


Camarões, década de 1950. Os nativos já não eram donos da própria terra há mais de meio século, vítimas do domínio colonial francês. Uma nação construída a partir de uma identidade fragmentada, ensinada a servir o homem branco e a reprimir sua própria cultura.

Em meio a esse cenário de apagamento, a história encontra seu núcleo central na família francesa de classe alta, os Dalens. O patriarca, Marc, pouco se faz presente, sempre atarefado com seu cargo no exército. Aimée, sua esposa, se distrai flertando com homens da alta sociedade e cuidando dos mínimos detalhes para manter seu jardim impecável.

A filha, France, de apenas cinco anos, é a última das preocupações de seus pais. Praticamente toda sua criação é delegada aos funcionários da casa, em especial a Proteé, que se torna a figura masculina mais presente para a jovem garota.

Ironicamente, a criança que carrega o nome da pátria que subjuga e apaga a cultura local é o grande tesouro dos empregados daquela casa. Uma menina branca, de olhos azuis, que cresce imersa na cultura africana. Usa insetos como tempero, canta músicas tribais, acompanha Proteé em suas jornadas de caça; mais do que apenas uma criança livre do racismo, France se torna um símbolo paradoxal da resistência de uma identidade em extinção.

Ao contrário do que a premissa leva a crer, Chocolat é um filme profundamente impessoal. Embora Claire Denis conte sua própria história de vida, a diretora mantém uma distância emocional e até mesmo narrativa de seus personagens. Eles são ofuscados pelas paisagens naturais de Camarões, que ganham mais destaque na tela do que qualquer desenvolvimento real da trama.

Por mais romântica que pareça a ideia de uma jovem francesa criada na contramão do colonialismo, Denis faz questão de expor a dureza da realidade. Ainda que France e Proteé compartilhem o mesmo espaço e até mesmo afeto, seus mundos jamais se encontram verdadeiramente. Essa dinâmica ecoa o que Frantz Fanon analisa em Peles Negras, Máscaras Brancas: o colonialismo não apenas subjuga materialmente, mas também psicologicamente aqueles que vivem sob sua sombra. Proteé não é livre; ele existe dentro dos limites do serviço, sua humanidade reconhecida apenas na medida em que lhe é permitido servir. Ele personifica a "máscara" de que fala Fanon—um homem forçado a reprimir sua identidade e seus desejos para sobreviver em um sistema que o enxerga apenas como subalterno.

No fim, Chocolat diz mais em seus silêncios do que em seus diálogos. É um estudo sutil das relações entre colono e colonizado, onde a maior tragédia não está no choque entre esses mundos, mas na impossibilidade de coexistência real entre eles.


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