Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
Filmes de romance costumam celebrar a conexão entre os personagens. Cada gesto, diálogo e elemento da linguagem desse gênero busca transmitir a ideia de um encontro de almas, algo que dá novo sentido à vida. Michelangelo Antonioni faz exatamente o oposto em O Eclipse, ao construir um filme que celebra, justamente, a ausência dessa conexão.
Antonioni não é apenas um pessimista, mas também um existencialista. E, nesse filme, ele traz essa visão a partir do olhar melancólico e distante de Vittoria, interpretada pela excelente Monica Vitti, que inicia a narrativa encerrando seu noivado com Riccardo justamente por conta dessa melancolia.
Em planos longos, Vittoria vaga sem rumo. Não se interessa por arte, homens e muito menos por dinheiro. É desejada, mas não deseja. Vive alheia às ambições de um mundo de ambiciosos, e acaba se tornando objeto de desejo do mais ambicioso que poderia encontrar: o jovem milionário Piero, interpretado por Alain Delon.
O Eclipse é um filme de enorme apelo estético, contrastado pela distância emocional entre os personagens. Silêncios desconfortáveis, falas mal interpretadas e a total ausência de senso de humor constroem esse “projeto de casal”. Piero tenta seduzir Vittoria a todo custo, em um desejo tão superficial quanto seu fascínio por bens materiais.
Vittoria vaga como um fantasma, mais lamentando a falta de sentido da vida do que, de fato, buscando um. Observa com desdém o caos da Bolsa de Valores, onde trabalha Piero, e se prende às minúcias arquitetônicas de Roma, exaltadas com precisão pela direção de Antonioni. Para além disso, pouco se revela sobre seus desejos. Ela permanece um enigma.
A grande sensação do filme é de anestesia. É na repetição dos eventos e na redundância dos personagens que O Eclipse encontra força para retratar um mundo que vive apenas de aparências. Sob o olhar apático de Vittoria, nenhum amor é real e a vida não faz sentido.