Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
Ao longo do século XX, a figura do “homem ideal” se molda cada vez mais pelo senso de pertencimento. O capitalismo produz um fetiche pela ordem, pela normalidade e pelo bem-estar coletivo. Nesse contexto, o indivíduo deseja se diluir na massa, evitando qualquer sinal de autenticidade ou destaque. Esse impulso de integração, que marca fenômenos populares como o American Dream, é também o sentimento conformista que permite a ascensão do fascismo.
Marcello Clerici, jovem italiano dos anos 30, é o retrato desse conformismo. A qualquer custo, busca se encaixar no meio da multidão. Alimenta uma devoção artificial à Igreja e ao casamento, mas nada é mais importante para ele do que o Partido Fascista, que se torna o eixo de sua existência e o símbolo máximo da trindade “Deus, Pátria e Família”.
A narrativa de Bertolucci, construída de forma não linear, vai revelando as contradições internas de Marcello. Ele não ama a noiva, duvida da própria fé e sequer acredita integralmente em Mussolini. No entanto, para um conformista, convicções pessoais são irrelevantes: o que importa é se adequar àquilo que “deve ser”.
Mais do que acompanhar um personagem, O Conformista expõe, através dele, a sedução do fascismo sobre um sujeito carente de identidade. O fascismo não conquista apenas com nacionalismo ou promessas de prosperidade, mas sobretudo com a promessa de segurança pela ordem, a garantia de que todos serão absorvidos pela massa, iguais, indistintos, protegidos.
Nesse sentido, O Conformista é um filme perigoso. Ele rompe com o maniqueísmo simplista e mostra como o discurso de Benito Mussolini podia soar atrativo. O fascismo engrandecia a Itália com a retórica de resgatar a glória do Império Romano, mobilizando símbolos históricos, exaltando raízes culturais e prometendo disciplina social.
Tudo isso é traduzido por Bertolucci também na linguagem visual: a arquitetura monumental, inspirada no classicismo fascista, ergue espaços grandiosos e hostis, diante dos quais os personagens parecem sempre minúsculos. A cenografia não é mero pano de fundo, mas metáfora da anulação do indivíduo, reduzido a sombra diante da ordem esmagadora do regime.