Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
A figura do samurai carrega consigo a representação da honra. Sempre justo, heroico e disciplinado. Kuroneko, logo em seus primeiros minutos, subverte essa imagem quando um grupo de samurais invade uma cabana isolada na floresta, estuprando e matando as duas mulheres que ali viviam.
A partir desse ato brutal, os espíritos das mulheres permanecem presos no plano físico, movidos apenas pelo desejo de vingança contra os samurais.
Kaneto Shindo realiza, assim, um filme anti-samurai: um terror que inverte papéis, revelando o lado humano dos espíritos e o lado monstruoso dos homens.
O bem e o mal se confundem e se diluem em seus próprios significados, até a aparição de um samurai verdadeiramente puro de coração, cuja presença é capaz de atenuar o ódio das entidades vingativas. A partir disso, o filme encontra cada vez mais espaço para reconhecer e reverenciar as dualidades.
Essa ambiguidade moral se reflete também no espaço: o bambuzal, cenário recorrente do filme, funciona como território de transição entre o plano físico e o espiritual. O espaço não pertence nem aos vivos e nem aos mortos, se tornando o território perfeito para o centro dos conflitos.
O dilema dos espíritos se expressa ainda na teatralidade do filme, que alterna entre o kabuki (teatro tradicional japonês) e o teatro ocidental. O primeiro domina as cenas de ódio e vingança, com gestos intensos e movimentos coreografados; o segundo surge nos momentos de vulnerabilidade e compaixão, aproximando Kuroneko de uma tragédia universal.