Home Cardus Edição 148, agosto 2025

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


DIAS PERFEITOS

Wim Wenders


Limpador dos banheiros públicos de Tóquio, Hirayama (Koji Yakusho) é um espectador do cotidiano. Um homem humilde e solitário, que tem sua rotina metódica como melhor amiga. Ele acorda, apara o bigode, rega as plantas, compra seu café, vai ao trabalho e volta para casa. Ele vive para os pequenos prazeres do cotidiano; seja tirar uma foto da árvore que ele visita todos os dias, se emocionar com uma música ou tomar um banho relaxante, os pequenos detalhes da vida o tornam um homem feliz.

Hirayama vive intensamente sua própria história. Todos os dias, quando dirige rumo ao trabalho, escolhe uma música para dar o tom de sua jornada. Ao som de House of The Rising Sun, o entediante trajeto até os banheiros sujos do centro da cidade ganha a aura épica de uma viagem sem volta para um duelo entre cowboys.

Cada música tocada expressa algo muito forte. Não é uma simples trilha sonora, mas uma expressão de estado de espírito do personagem. Não há nada de radical em limpar banheiros, mas a empolgação do protagonista vive ali, trabalhando e observando pessoas. É o que os teóricos do cinema classificariam como um exemplo perfeito de montagem tonal (sonoridade emocional dos planos agindo sobre o espectador).

Em algumas cenas do filme, a rotina do protagonista parece tão deprimente e claustrofóbica que planos coloridos não conseguem convencer que sua vida é tolerável. Como é possível um homem viver tão pacífico, apreciando música, fotografia e literatura tão intensamente naquelas condições? O diretor Wim Wenders nos ensina que a arte não é um simples refúgio, mas sim tudo o que há. Uma necessidade vital na condição humana.

Hirayama é, como citado no início, um espectador do cotidiano. Mesmo bondoso e otimista, não conversa com as pessoas. Quando muito entretido por alguém, acena com a cabeça em um gesto de validação. Ele se entrega tanto a essa posição que se torna uma performance artística. Mesmo protagonista, ele é tão espectador quanto nós.

Dias Perfeitos é um filme meditativo, com o característico ritmo lento do cinema japonês. Uma obra que prega generosidade, gratidão e amor pela vida. Um escape da realidade de constantes estímulos em que estamos inseridos, onde perdemos totalmente o rumo das coisas que nos alegram. Assista ao filme, que certamente te mostrará o caminho de ter “dias perfeitos”.