Cardus Edição 144, abril 2025
Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
A miséria é mais que uma simples condição financeira; é um estado espiritual que oprime e toca o fundo da alma de qualquer ser humano. Em Carvão, uma família do interior do Brasil, vivendo nesse pesadelo, recebe uma proposta capaz de tirá-los dessa vida: mais dinheiro do que jamais poderiam imaginar, em troca de abrigo para um traficante argentino, interpretado pelo brilhante César Bordón.
O filme flerta com vários gêneros, mas nunca se entrega completamente a nenhum. O criminoso foragido tenta disfarçar seu olhar antipático para a família e, em alguns momentos, parece até caminhar para uma redenção—mas sua postura elitista é tão evidente que chega a ser cômica.
Sendo um filme dirigido por Carolina Markowicz, a crítica social é naturalmente ácida. Ela não tem medo de enfatizar que a pobreza não é sinônimo de virtude e que a ganância pode andar de mãos dadas com a simplicidade.
Carvão assume a complexidade de seus personagens e evita a clássica dicotomia entre heróis e vilões. No fim, a ambiguidade é a chave para revelar uma verdade incômoda: muitas vezes, tudo o que o ser humano precisa para praticar o mal é uma oportunidade.