Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
Existe algo de muito grandioso na calmaria gélida que envolve o cenário de Fargo. Uma pequena cidade do interior de Minnessota, coberta pela neve e receptiva pela simplicidade da população local. É uma comunidade completamente avessa à ambição, luxos ou qualquer evento que fuja da rotina em geral. O palco mais improvável e menos merecedor da sequência de crimes grotescos e hediondos que se desenrolam na história dirigida pelos irmãos Coen.
Jerry Lundegaard trabalha como vendedor de carros, mas sua verdadeira paixão é o estelionato. Toma dinheiro dos clientes de toda a maneira que consegue, até que estrutura um plano ‘’infalível’’; contratar dois criminosos para sequestrar sua esposa, forçando seu sogro rico a pagar o resgate.
Era um crime simples em um local pacífico, mas os forasteiros contratados para fazer o serviço são quase alienígenas naquela cidade. Brutais, impulsivos e incapazes de se adaptar àquela realidade, eles transformam o sequestro em uma escalada de violência, deixando um rastro de sangue tão desnecessário que abraça o cômico.
Fargo é um filme que deve ser olhado por dois ângulos diferentes; o primeiro, e mais óbvio, pela sua história de um crime mal executado em que a violência escala. Entretenimento puro, uma sequência de eventos que dispensa análise. Mas o pano de fundo desse caos é tão pacato, cercado por personagens tão serenos, que os irmãos Coen criam um filme de contraste absoluto.
Enquanto acompanhamos os sequestradores, Fargo é um filme que aflige, te hipnotiza de maneira apelativa e sanguinolenta. Quando transiciona para Marge, a investigadora responsável, Fargo contempla a rotina e o culto a normalidade. Uma mulher otimista, que nutre uma paixão inexplicável pelo tédio e pelas coisas simples da vida. Nada a tira do eixo, nem mesmo a investigação de um sequestro seguido por homicídio qualificado.
Os irmãos Coen reconhecem esse contraste e se utilizam dele para criar o tom cômico da história. Em Fargo, a violência mais brutal se choca com a normalidade mais banal, revelando o quanto o mal pode surgir de algo tão trivial quanto uma ambição frustrada.