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CONVIDADOS


FALARES POPULARES

António Pereira Torres e João Pires da Silva

Falar é um processo de comunicação utilizado pelas pessoas entre si, e é uma capacidade exclusiva da espécie humana.

Os falares do povo sempre influenciaram muito a transformação e a evolução das línguas, e o isolamento de povos originou formas de falar específicas.

As pessoas da região de Mação estiveram durante séculos circunscritas, na sua grande maioria, à localidade ou aldeia em que habitavam.

A inexistência de vias de comunicação fáceis proporcionou isolamentos que, com toda a certeza, terão contribuído para se construírem, herdarem e manterem formas de falar específicas, desde o nome de objetos até formas de expressar ideias e sentimentos.

Há nomes de objetos e expressões de ideias que nos são próprios e há também formas orais de pronunciar nomes comuns que caracterizam bem esta região. São exemplos disso, o dizer coresma (em vez de quaresma), despois (depois), doudo (doido), dous (dois), leute (leite), nacem (nascem).

Propomo-nos, por isso, apresentar neste jornal alguns textos apropriados, baseados em critérios empíricos, que não científicos, com que ilustrámos exemplos de falares próprios do concelho de Mação, em tempos idos.


COSTUMES E FALARES D’OUTRORA
Concelho de Mação - Meados do Século Passado


BAILES E… O BOTA CÁ LICENÇA



Em tempos idos, os balhos realizados nas nossas aldeias eram verdadeiras montras de estratificação social, à boa maneira das histórias camilianas.

Com efeito, e especialmente em época de férias (Verão, Natal e Páscoa), a juventude dinamizava a realização de bailaricos – um dos poucos meios de que dispunham para quebrarem a pacata monotonia das aldeias rurais.

Com os rapazes e raparigas apapoilados, os bailes começavam cedo, ainda com a luz do dia, e, a não ser em festejos especiais (festa do orago; casamentos ou no dia das sortes[1]), terminavam logo que os homens abandonassem as tabernas e se dirigissem às respetivas residências, para a janta e recolhimento aos catres. Na ausência de eletricidade, impunha-se a natural dimensão da noite.

No decorrer dos balhos gerava-se, subtil e explicitamente, uma tripla segregação. De um lado, os rapazes e as raparigas oriundos de gentes do povo, quase todos a mourejar no campo ou noutras ocupações braçais: dançavam entre si, normalmente com gestos desabridos e algumas cabriolices. Doutra parte, as raparigas e os rapazes que estavam de férias em casas de familiares, estudantes ou trabalhadores de serviços na cidade. Entabulavam diálogos sobre assuntos ponderosos e, daquele ambiente restrito, emergiam pares de dançarinos, quiçá de namorados. A não ser que razões de natureza familiar o permitissem, raramente um rapaz do grupo anterior (e inferior socialmente) ousava convidar uma rapariga da cidade para dançar. Por último, um terceiro grupo de jovens também oriundos da cidade, mas mais maduros: universitários ou mesmo já licenciados, que se limitavam a conversar e a observar o baile, vislumbrando ali, porventura, páginas vivas de antropologia (Ferreira de Castro); raramente dançavam e, quando o faziam, os pares constituíam-se no seio restrito daquele núcleo.  

A panóplia de meios e de instrumentos musicais para animar os balhos era variada. Em ocasiões especiais (festas anuais do padroeiro, casamentos ou no dia das sortes) havia um acordeonista, ou um gira-discos movido a pilhas ou por uma mola que se alimentava rodando uma manivela. Fora disso, os jovens socorriam-se de uma flaita ou gaita-de-beiços, que um ou outro aldeão soubesse tocar. Em último recurso, as raparigas ou, mais raramente, os rapazes soltavam as vozes, quantas vezes sofríveis, e entoavam canções populares.

Em dias de festa, os balhos realizavam-se num recinto preparado especialmente para o efeito. Fora desses calendários, os jovens iam pedir, por empréstimo, um barracão ou um palheiro, para ali dançarem. Não raro, os donos desses espaços exigiam um contributo simbólico, cujo montante seria angariado no decurso do balho: os rapazes eram convocados para, entre si, custear esse encargo. Não resultando ou não se revelando suficiente, as raparigas organizavam umas séries de modas, em que os rapazes que quisessem dançar eram alinhados numa das paredes do recinto e as raparigas iam convidá-los individualmente. Cada um dos rapazes pagava um tanto (alguns escudos). Era um jogo de risco elevado (para alguns insuportável), mas também de sedução. Se um rapaz tivesse a sorte de ser convidado pela rapariga mais bonita e mais atraente do balho, daria o dinheiro por bem empregue e aqueles 7 ou 8 minutos correriam à velocidade da luz; ao invés, se fosse convidado para dançar – e não podia recusar – pela cachopa mais feia e maljeitosa do salão, choraria o dinheiro gasto enquanto se lembrasse, e aqueles minutos parecer-lhe-iam horas. Mais: neste último caso, o rapaz seria caçoado pelos companheiros durante toda a semana. 

Com o cair da noite tornava-se necessário iluminar o recinto ou o salão. Na ausência de eletricidade, restava o candeeiro a pitról. Numa das paredes do salão, suspenso numa tábua cavilhada entre pedras ou tijolos, instalava-se um candeeiro limpinho como novo. Era certo que, ainda assim, a luz não contemplava uniformemente todos os recantos do local, facto que agradava sobremaneira aos pares de dançarinos, sobretudo aos mais afoitos ou comprometidos.

Para velar pelos bons costumes, lá estavam as mães, as avós, as tias e as madrinhas das cachopas – uns engastalhos. As vizinhas, enzoneiras, mesmo que não tivessem filhas nem netas em idade núbil, também iam ver o balho. De olhares argutos, observavam os avanços dos jovens em idade de namoro para, nos dias seguintes, contradizerem os comedimentos que as mães, avós e madrinhas das meninas adolescentes propalariam à saída do terço, na fonte ou no lavadouro. As vigilantes senhoras, para seu conforto, muniam-se de um mocho ou de uma tropeça, de modo a poderem acocorar-se em volta da roda do balho. Se calhasse o salão ter uma janelita era certo e sabido que ali amontariam algumas coscuvilheiras. Sabidões, os pares dançantes exibiam um comportamento enquanto passavam frente ao painel de vigilantes e outro, completamente diverso, no lusco-fusco proporcionado pela outra parte do salão. Aqui, para além de retardarem o ritmo da dança, os jovens aproveitavam para se apertarem mutuamente, para suspirarem ardores e para sussurrarem confidências amorosas, colando as faces um no outro.

Para arbitrar este jogo de aproximações, havia a regra, comummente aceite, do Bota Cá Licença: qualquer rapaz (embora o não usassem com frequência, as raparigas também podiam recorrer ao Bota Cá Licença) poderia abeirar-se de um par que dançava, tocava ao de leve no braço do dançarino e proferia: Bota Cá Licença. Ato contínuo, o rapaz que dançava era forçado a ceder a rapariga ao novo dançarino, e o baile continuava. Este estratagema era frequentemente usado para dissuadir os intentos de algum forasteiro que, de aldeia vizinha, pretendesse catrapiscar rapariga bonita em terra alheia. Neste caso, os rapazes da terra dispunham-se articuladamente em torno da roda do baile e, quase de metro em metro, neutralizavam os propósitos do jovem conquistador. A disputa mantinha-se enquanto o baile durasse, a menos que a rapariga mostrasse agaste pela perseguição ao seu pretendente, sinal evidente da sua disposição para acolher os avanços do forasteiro. Por vezes, estas escolhas das cachopas não resultavam e, se elas se não precavessem, corriam o risco de ficar desonradas e… para tias.

Uma por outra vez, as rivalidades entre jovens de aldeias vizinhas terminavam em brigas: afinfavam-se uns empurrões, porventura uns pares de sopapos e um ou outro pontapé. Por fim, não amainando a refrega, os jovens intrusos davam às de vila-diogo, corridos à calhoada; se algum contendedor, no ardor da debandada, se esbardalhasse no chão, havia a tentação de lhe chegar a roupa ao pêlo, marcando-o com umas valentes arrochadas.  

Como as demais regras, também esta tinha exceções: pares com namoro já firmado e assumido socialmente e, bem assim, maridos e esposas que dançassem, não eram incomodados com o Bota Cá Licença.

Afinfar – Aplicar, pespegar;
Amontar – Espreitar;
Apapoilar – Embonecar;
Arrochada – Pancada com cacete, arrocho;
Balhos – Bailes;
Caçoar – Troçar, zombar;
Calhoada – Pedrada;
Dar às de vila-diogo – Fugir, escapar;
Engastalho – Estorvo;
Enzoneira – Mexeriqueira;
Esbardalhar – Cair no chão;
Flaita (Gaita de Beiços) – Flauta;
Lavadouro – Local público para lavagem de roupas;
Mocho – Banco pequeno;
Modas – Danças;
Pitról – Petróleo;
Sortes – Inspeção militar;
Terço – Oração religiosa;
Tropeça – Banco pequeno, normalmente de cortiça.

(Recolha: Carregueira – Mação)

[1] Outrora, quando as fileiras das Forças Armadas não necessitavam da totalidade dos mancebos, procedia-se a um rateio no momento das convocatórias: a cada um dos candidatos era entregue uma cartolina onde estava inscrito um número; um duplicado dessa cartolina, com igual número, era depositado num saco. Concluído o processo com todos os mancebos, um dos responsáveis pela seleção introduzia a mão no saco, misturava as diversas cartolinas e tirava uma, cujo número era lido em voz alta. Aqueles que tivessem o número equivalente estavam destinados a cumprir o serviço militar; aqueles que, no termo do processo, não tivessem sido chamados estavam livres. Era uma questão de sorte. Por isso, os rapazes iam às sortes.   Note-se que “ficar livre da tropa” nem sempre era um bom sinal. Desde logo, porque na tropa havia a garantia de comida e roupa (farda), depois porque as raparigas casadoiras tinham algum pudor em aceitar como namorado um jovem que não tinha ido à tropa: será que tinha alguma deficiência?  

António Pereira Torres e João Pires da Silva