Home Cardus Edição 148, agosto 2025

CONVIDADOS


FALARES POPULARES

António Pereira Torres e João Pires da Silva

Falar é um processo de comunicação utilizado pelas pessoas entre si, e é uma capacidade exclusiva da espécie humana.

Os falares do povo sempre influenciaram muito a transformação e a evolução das línguas, e o isolamento de povos originou formas de falar específicas.

As pessoas da região de Mação estiveram durante séculos circunscritas, na sua grande maioria, à localidade ou aldeia em que habitavam.

A inexistência de vias de comunicação fáceis proporcionou isolamentos que, com toda a certeza, terão contribuído para se construírem, herdarem e manterem formas de falar específicas, desde o nome de objetos até formas de expressar ideias e sentimentos.

Há nomes de objetos e expressões de ideias que nos são próprios e há também formas orais de pronunciar nomes comuns que caracterizam bem esta região. São exemplos disso, o dizer coresma (em vez de quaresma), despois (depois), doudo (doido), dous (dois), leute (leite), nacem (nascem).

Propomo-nos, por isso, apresentar neste jornal alguns textos apropriados, baseados em critérios empíricos, que não científicos, com que ilustrámos exemplos de falares próprios do concelho de Mação, em tempos idos.


COSTUMES E FALARES D’OUTRORA
Concelho de Mação - Meados do Século Passado (3)


MEMÓRIAS DE “JOÃO SEMANA



Ainda hoje persiste a expressão popular de caraterizar o velho médico de aldeia como um verdadeiro João Semana, símbolo de um espírito generoso e altruísta, qualificativo oriundo da bondosa personagem médica descrita por Júlio Dinis, no popular romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.

É o caso de vários clínicos que apoiaram Mação e as várias freguesias que integram este concelho, com referência a meados do século anterior, entre os anos de 1930 e 1980, ou seja, durante quase 50 anos. Eram homens práticos, sensíveis ao sofrimento alheio e, por isso mesmo, estimados e respeitados pelo povo.

Atendiam os doentes em consultório, muitas vezes montado na sua própria casa de habitação, e deslocavam-se às aldeias, pertencentes à sua área geográfica, quando eram chamados por alguém, que, em caso de aflição, não conseguia deslocar-se à sede da freguesia. Muitas vezes, aos mais necessitados não levavam dinheiro pela consulta.

Como médicos de aldeia tratavam de todas as doenças, numa época em que raramente haveria possibilidade de recorrer a exames ou análises, hoje em dia imprescindíveis para a realização de um diagnóstico. Não, naqueles tempos o médico de aldeia, não tendo disponíveis, em regra, tais recursos de diagnóstico, tinha de descobrir a natureza da doença e recomendar o tratamento adequado, disponível na época.

Exerciam a profissão como um verdadeiro sacerdócio, dedicado a aliviar o sofrimento dos doentes. Eram muitas vezes chamados durante a noute para acudir a algum doente que se encontrava em estado de aflição. Costumava-se dizer que durante o dia os familiares do doente pensavam que a situação fosse melhorando, mas, quando entrava a noute, aumentava a aflição do doente e da família, e havia que ir alguém chamar o médico.

Este, se já estivesse recolhido a dormir, lá se levantava e arranjava, preparando-se para partir, fosse qual fosse o tempo. E então, se ocorria ser em plena época de inverna, muitas vezes debaixo de chuva, o nosso João Semana, mesmo a altas horas da noute, envergava o seu pesado capote alantejano, vestia os seus quentes safões de pele de borrego, mandava aparelhar o cavalo ou a montada que o apoiava e lá seguia escarranchado em cima do animal, percorrendo um bom par de quilómetros, levando normalmente à frente o familiar do doente, que, munido de uma alinterna de azeite, ia alumiando o caminho.

Mas era uma consolação, um alívio e uma segurança muito grande para toda a família, quando viam entrar o médico nesse momento em sua casa. E para o doente a simples presença do médico era um lenitivo muito benéfico para os seus males pela confiança que inspirava.

O contacto de um clínico com as populações, muitas vezes pouco conhecedoras dos segredos e das origens da vida ou da doença, proporcionava-lhes uma informação e conhecimentos específicos que tinham de ter em conta.

Nesse aspeto são singulares algumas experiências de vida que alguns destes “João Semanas” acabaram por referir em circuito restrito, mas que atestam ignorâncias elementares das gentes do povo.

Havia entre eles, médicos, que embora tivessem por missão tratar de todas as doenças, eram dotados de uma vocação especial para o apoio a parturientes, especialidade que, desde os tempos da Universidade Médica, os haviam tocado e entusiasmado. O mesmo é dizer que apreciavam poder ajudar as parturientes no seu difícil trabalho de dar à luz.

Eram tempos em que o árduo ato de nascer era resolvido na casa da família, muitas vezes apenas com a ajuda de uma curiosa local que fazia as vezes de parteira.

Deixaram-nos alguns deles relatos invulgares de casos, dignos de serem assinalados. Um destes médicos foi chamado para apoiar uma parturiente numa aldeia vizinha. Fez a deslocação habitual montado no cavalo que tinha disponível e, quando chegou à casa visada, fez o diagnóstico da situação. Havia que esperar algum tempo para que o trabalho de parto se fosse desenrolando.

Quando finalmente ocorreu, nasceu um belo rapaz, que logo deu os habituais sinais de vida. Mas o grande espanto foi que, após aquele nascimento, o médico anunciou que outro menino, gémeo daquele, estava também para sair.

Nessa altura a mulher senta-se na cama, toda indignada, e atira-se ao marido ali presente:

– Meu grande malandro, eu bem te dizia que estava grávida e que não podia ser; mas tu insististe e vês, fizeste-me depois mais um filho! E agora?

Era assim a ignorância das pessoas!

 

Numa outra situação, completamente diferente, o médico foi consultado por um homem que andava, desde há muito tempo, com um forte catarral, que as mezinhas da mulher não conseguiam debelar. É-lhe receitada medicação adequada e o homem lá foi à sua vida. Passados tempos o nosso clínico encontra casualmente este paciente na vila e ocorre-lhe perguntar:

  –  Então Sr. José já está melhor? Passou-lhe o catarro?

  – Oh. Sr. Doutor, passar, passou, mas o mais difícil foi tomar o medicamento que o Sr. Dr. receitou.        

Aquilo amargava muito, sabia muito mal e ia-me dando cabo do estâmago .

Pobre homem! O médico havia-lhe receitado uma caixa de supositórios, mas o doente, ignorante, deu-lhe um destino errado….

Já se disse que o médico de aldeia tinha de tratar de tudo, tinha de saber de todas as doenças. É o caso dos males comuns nestes locais, onde a constante ligação à terra e aos animais de várias espécies, infestados de parasitas e de moscas, originavam por vezes doenças não fáceis de tratar.

Apareciam com frequência pessoas com panarícios e antrazes, áreas onde os nossos médicos tinham adquirido uma “expertise” e uma prática, que lhes permitiam, com êxito, conseguir debelar tais doenças, bastante incomodativas para quem diariamente tinha de laborar a terra e tratar dos animais.

 

Noutro aspeto, ocorreu em dada altura um encontro ocasional entre dous homes emigrantes, originários do concelho de Mação e que se perguntam:

 – Você donde é?

 – Eu sou do concelho de Mação. E você?

 – Eu também. Sou da zona de Envendos.

Extraordinário, diz o segundo. Somos da mesma região, devemos ter a mesma idade, mais ou menos, e não nos conhecíamos. Sabe, eu tenho um dever de gratidão ao médico daqui. É a ele que eu devo o estar vivo. Quando do meu nascimento, o parto foi tão difícil e foi ele com o “forceps” que conseguiu arrancar-me a ferros de dentro da minha mãe. A coisa parece que estava a correr muito mal e foi ele, com a sua habilidade, que conseguiu salvar a vida da minha mãe e a minha. E só agora é que me contaram esta história. Eu gostava de estar com esse médico.

Há que dizer que estes homens, os médicos, eram benquistos e muito estimados pela população, dado o apoio, a segurança, os conselhos e os avisos, bem sentidos por todos, que davam voluntariamente a quem os consultava.

 

Acudir – Socorrer;
Alinterna - Lanterna;
Alumiando - Iluminando;
Amargava - Tinha gosto acre;
Capote alentejano - Capa comprida, típica dos alentejanos, usada no inverno rigoroso;
Catarral –Infeção dos brônquios, com tosse;
Dar cabo estâmago – Estragar, provocar dor de estômago;
Dous -Dois;
Forceps –Utensílio em forma tesoura, usado em apoio a parturientes;
Homes - Homens;
Inverna - Inverno, mau tempo;
“João Semana”- Personagem médica, generoso e altruísta, descrito pelo escritor Júlio Dinis;
Mezinhas - Remédios caseiros;
Noute - Noite;
Safões – Meias-calças de pele, usadas para proteger do frio.

(Recolha: Envendos – Mação)

António Pereira Torres e João Pires da Silva