FALARES POPULARES
Falar é um processo de comunicação, utilizado pelas pessoas entre si, e é uma capacidade exclusiva da espécie humana.
Os falares do povo sempre influenciaram muito a transformação e a evolução das línguas, e o isolamento de povos originou formas de falar específicas.
As pessoas da região de Mação estiveram durante séculos circunscritas, na sua grande maioria, à localidade ou aldeia em que habitavam.
A inexistência de vias de comunicação fáceis proporcionou isolamentos que, com toda a certeza, terão contribuído para se construírem, herdarem e manterem formas de falar específicas, desde o nome de objetos até formas de expressar ideias e sentimentos.
É de salientar que, no concelho de Mação, e por volta do ano 1900, apenas 11%[1] da população sabia ler e escrever, pelo que o predomínio da oralidade sobre a escrita terá contribuído para a consolidação de falares específicos, que perduraram pelos tempos.
Há nomes de objetos e expressões de ideias que nos são próprios e há também formas orais de pronunciar nomes comuns que caracterizam bem a esta região. São exemplos disso, o dizer coresma (em vez de quaresma), despois (depois), doudo (doido), dous (dois), leute (leite), nacem (nascem).
Mas, é de assinalar que algumas destas formas, que herdámos e mantivemos, foram usadas por Camões[2].
É neste contexto que nos propomos levar ao conhecimento dos leitores uma reflexão e alguns exemplos de Falares Próprios do concelho de Mação, inerentes a costumes e ofícios que, por ali, se exerciam.
Não temos a veleidade de ser exaustivos. Propomo-nos apresentar tão-somente alguns textos apropriados, baseados em critérios empíricos, que não científicos, com que tentamos ilustrar exemplos de falares próprios do concelho de Mação, em tempos idos.
[1] Antonio de Oliveira Matos, Monografia do Concelho de Mação.
[2] Ivo Castro, A Estrada de Cintra.
Naqueles tempos e na nossa zona, a arquitetura das escolas primárias era basicamente a mesma. Por certo em obediência ao Programa dos Centenários: uma sala retangular e ampla, com largas janelas de ambos os lados, para facilitar as luminosidades; fiadas de carteiras duplas, com tampo amovível e, no topo, uma travessa fixa com duas ranhuras: uma, para os alunos poisarem a caneta, e outra para se embutir um tinteiro de louça, com tinta.
Ao fundo da sala, sobre um estrado também de madeira, com uns dez centímetros de altura, a secretária da professora (nos anos de 1950 esta função era exercida maioritariamente por mulheres). Na parede frontal, um quadro de ardósia, onde se redigiam letras e algarismos, por vezes percetíveis. A meio da parede, fora do alcance da garotada, um crucifixo, com Jesus já morto e, a ladeá-Lo, as fotografias dos venerandos governantes de então: Américo Tomás e António de Oliveira Salazar. De manhã e de pé, murmuravam-se saudações aos presidentes e uma oração a Deus.
A professora, D. Maria Antónia Mendes Martins, uma Regente Escolar[1] competentíssima e com uma visão do ensino que já mal se compreendia nos tacanhos limites da época, nem parecia cansada, apesar das lidas que já desempenhara antes do início das aulas: preparar as refeições do dia, para si e sua filha, também aluna; carregar tudo num cesto de verga que transportava à cabeça, equilibrado numa rodilha, e calcorrear caminhos de pó ou de lama, conforme a época do ano, durante cerca de uma hora – naqueles tempos as distâncias mediam-se em horas de caminhada, que não em metros ou quilómetros. Já a preparação das aulas teria sido trabalho da noite anterior. No inverno, era frequente a professora sujeitar-se às chuvadas, quando não às escardoçadas, no percurso entre a vila e a aldeia, e chegar com a roupa molhada e os pés encharcados; também enregelada por força de barbeiros cortantes que sopravam dos lados da Aboboreira. A filha nem tanto, pois já dispunha de botas de borracha, de luvas e de uma capa protetora. Então, após ter distribuído trabalhos na turma, a professora refugiava-se na zona privada da escola, ateava uma fogueira com as pinhas, os gravelhos e os tanganhos que, em tempos enxutos, os pais dos alunos lhe levavam, na senda das suas boas graças. Pouco depois, já com a roupa e os pés menos húmidos, regressava à sala de aulas, com a energia redobrada.
Na sala, os alunos (dois por carteira, rapazes e raparigas em simultâneo) das quatro classes (anos) do ensino obrigatório dispunham-se por ordem de ingresso no ensino: junto à porta da entrada, os principiantes (1ª classe), depois os da 2ª e 3ª e, finalmente os da 4ª classe, nas carteiras mais próximas da secretária da professora.
Os alunos chegavam já cansados, pois os caminhos que ligavam a aldeia à escola eram íngremes e acidentados. Ainda assim, era frequente organizarem-se corridas entre eles, para apurar quem era o mais rápido a subir aqueles carreiros.
Ao ombro, cada aluno trazia a sacola que a mãe ou a avó confecionara a partir de retalhos de saias ou de calças velhas, onde transportavam a pedra e o respetivo lápis, ambos de ardósia, um caderno, um lápis de carvão e uma borracha, e o livro da classe de frequentavam. Na 3ª e 4ª classes, alguns alunos já possuíam uma caneta de tinta permanente – um luxo.
Por regra, dos 8 ou 10 que entravam todos os anos, chegavam à 4ª classe incólumes de “raposas”, 3 ou 4. A passagem de ano, nas 1ª e 2ª classes, era decidida pela professora. Já os alunos das 3ª e 4ª classes tinham de ir a outra escola, normalmente à vila, para prestar provas perante um professor graduado. Era uma deslocação geradora de notória ansiedade para os alunos, para as famílias e também para a professora que, para lá de cuidar dos aspetos pedagógicos, tinha ainda o encargo de orientar as famílias, fosse em relação à indumentária dos alunos, ao calçado, à caneta que deveriam usar e também à higiene. Nesse dia, convinha que, pelo menos as camisas e as blusas, estivessem lavadas e passadas a ferro, as unhas das mãos deveriam estar cortadas e minimamente limpas, as meias não deveriam ostentar buracos e não poderia haver “lagarta” nas orelhas, nem nos artelhos.
Os alunos que, em cada ano, iam ser submetidos a exame eram objeto de trabalhos adicionais, designadamente no mês que antecedia as provas. Era, com efeito, normal que, após o cumprimento do seu horário quotidiano, a professora Maria Antónia despedisse a maioria dos alunos, retendo na sala aqueles que iriam ser propostos a exame. Com estes, prosseguia trabalhos adicionais, treinando-os para as provas finais. Nesse generoso afã, era frequente a professora esquecer-se das horas e da distância que a separava de Mação, onde residia, e onde chegaria noite cerrada.
Para além das funções de docência, e num ato de generosidade cívica incomum, a professora Maria Antónia dedicava um dia por semana para ler as cartas que os habitantes iletrados da Carregueira recebiam de familiares que mourejavam longe da aldeia. Também lhes preparava as respostas que, na altura, eram encomendadas. Nesse voluntariado, que exercia graciosamente e em ambiente de absoluto sigilo, terá sido confidente de alegrias que se não confessavam fora das intimidades, e também de querelas e de dramas familiares. Quantas vezes fora conselheira decisiva!
Verdadeiras heroínas. Estas professoras ensinavam os jovens a ler e a escrever, também os algarismos e a tabuada, a História e a Geografia. Ainda lhes (aos jovens e às famílias) incutia estímulos na aprendizagem de regras de sociabilidade, bem como os desafiava a alargarem as vistas para lá dos montes que rodeavam a aldeia.
Quantos reconhecimentos devem as gentes da Carregueira à memória da professora Maria Antónia!
A escola não dispunha de retrete. Os alunos serviam-se do campo para aliviarem os apertos: era no monte fronteiro à escola, a coberto de um penedo. A professora autorizava as idas à retrete – rapazes e raparigas, separadamente. As demoras excessivas eram corrigidas com um raspanete ou, quando configurassem abuso, com um puxão de orelhas.
Quem passasse no exame da 4ª classe – último do percurso escolar obrigatório – tinha direito ao lançamento de um foguete, no regresso à aldeia. Já quem trouxesse a “raposa” corria o risco de ser presenteado com umas orelhadas por parte da mãe ou uma cinturada por banda do pai; quando não, dos dois.
Ao longo do ano letivo era frequente a professora mandar chamar o pai ou a mãe dos alunos para os informar sobre o desempenho do filho ou da filha. Quando as informações não agradavam, e como se fora necessário, os progenitores instruíam a docente para lhes ferrar umas arrochadas ou mesmo pô-los cá fora com as orelhas-de-burro. A professora, no entanto, recorria apenas à régua. As palmatoadas eram mais práticas e eficazes para refrescar a memória dos educandos que, por não estarem atentos ou não estudarem, pouco ou nada sabiam. Eram assim aqueles tempos! Não obstante, os alunos, duros e semisselvagens, resistiam as estas severidades com destemor. Não havia cornada-de-grilo que os afetasse.
[1] A figura dos Regentes Escolares foi criada por António de Oliveira Salazar, em 1931, para mitigar a elevada taxa de analfabetismo registada em Portugal – nessa época, em cada quatro portugueses, apenas um sabia ler e escrever.
Arrochada – Pancada com um arrocho (pau curto);
Barbeiro – Vento frio;
Cornada-de-Grilo – Leve bordoada;
Escardoça – Granizo;
Gravelhos (e Tanganhos) – Ramagens frágeis de árvores e arbustos;
“Lagarta” – Sujidade encardida;
Orelhada – Tabefe com a mão, na zona das orelhas;
Orelhas-de-Burro – Sinal que referenciava os alunos com resultados negativos;
Palmatoada – Reguadas na palma das mãos;
“Raposa” – Reprovação em exames;
Regente Escolar – Pessoa a quem era atribuída a responsabilidade de Posto Escolar nas zonas rurais, com a incumbência de alfabetizar os jovens;
Rodilha – Peça redonda, elaborada com restos de roupa, que servia de almofada para transportar volumes pesados à cabeça.
(Recolha: Carregueira – Mação)
António Pereira Torres e João Pires da Silva