Cardus Edição 143, março 2025

FILATELIA

Edmundo

SELOS, essa coisa admirável!



Dados técnicos:
Data de emissão: 20.01.2025

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Des Glaneuses

Elles ont le dos voûté, elles regardent le sol, elles cherchent les épis qu’auraient oubliés les moissonneurs. Derrière elles, de grandes meules, le foin s’entasse, une certaine image de l’abondance se devine, gardée par un régisseur à cheval, mais la focale reste sur ces femmes, ces glaneuses, dont la lumière du soleil couchant sculpte les corps. [...]

In LA POSTE

É como diz o texto que acompanhou a emissão deste selo pelos correios franceses: costas curvadas, olhos no chão, procuram as espigas que restaram após a grande colheita; a grande quinta, está ao fundo, esbatida, com o senhor a cavalo e as enormes quantidades de feno.

Este quadro foi pintado por Jean-François Millet em 1857 e pode ser visto no Musée d’Orsay, em França.

Consulto a infopédia para ver o significado de “Des Glaneuses”: nome feminino, plural de “glaneur”. E o que é um “glaneur”? Nome masculino, respigador, rebuscador, rebusqueiro. Tudo nomes a que estava pouco habituado. Traduzo assim o título do quadro para “As Respigadoras”.

Já vi gente ao respigo:

A primeira vez, nos anos oitenta, caminhando ao longo dum campo na Baviera, no qual as máquinas tinham acabado de colher os tubérculos dum enorme batatal. Respigadores e respigadoras, em grupos aparentemente familiares, curvados como no quadro, iam enchendo sacos com as batatas que os automatismos não puderam recolher. Pela maneira de vestir pareceram-me todos turcos, uma comunidade numerosa que vivia na Alemanha, orgulhosa da sua cultura e com pouca disposição para assimilar a da terra;

Mais tarde, no sul da Guiné, numa pequena festa comemorativa, quando alguém, reparando talvez no esforço que fazia para não deixar nada no prato, me fez notar que não era falta de educação não comer tudo. E que até era de bom tom, perguntar se alguém queria comer o resto. Não era vergonha nenhuma e ninguém ficava ofendido. Os pratos passavam com toda a naturalidade de uns para outros, chegavam à lavagem completamente respigados. Pergunto ao Google os números do desperdício alimentar em Portugal. A resposta vem rápida: em Portugal, estima-se que sejam descartados cerca de 1 milhão e 800 toneladas de alimentos todos os anos, o que corresponde a mais de 180 quilos por cada português;

E também por cá, ainda hoje, vejo regularmente pessoas a respigar em contentores do lixo.

Só respiga quem é pobre. O próprio Jean-François Millet nasceu pobre (camponês) e pensava que pobre iria morrer. Não foi o caso, acabou por se tornar um grande pintor. Alguma mensagem ele terá querido transmitir quando pintou o quadro e destacou a pobreza. Há muitas maneiras de ler o quadro, leio-o duma maneira muito pessoal: uma homenagem às três respigadoras anónimas e a todos os que elas representam: os que aproveitam o que há, que sobrevivem e que não desistem de viver.


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