Home Cardus Edição 149, setembro 2025

FILATELIA

Edmundo

SELOS, essa coisa admirável!


Dados técnicos:
Emissão: Dark Sky (New Zealand)
Designer: Nick Jarvie;
Data de emissão: 19.06.2025;

Mais informação


Esta emissão filatélica dos correios da Nova Zelândia é constituída por uma folha colorida contendo seis selos destacáveis, cada um deles dedicado a uma constelação.

Comum a todos os selos estão três referências: Aotearoa, New Zealand e Dark Sky Project. A primeira é, afinal, o nome oficial da Nova Zelândia em Māori, a segunda dispensa apresentações e a terceira, Dark Sky Project, é um projeto turístico centrado na observação das estrelas, inserido no Mackenzie International Dark Sky Reserve, um espaço de 4,367 quilómetros quadrados, delimitado com o propósito primeiro de preservar as noites escuras, isto é, livre de poluição luminosa.

Só quem nunca esteve em lugares remotos, à noite, sem poluição luminosa (como nos meus tempos do mato, em África), no escuro completo, com lua escondida e sem nuvens, desconhece o espetáculo que é olhar, nessas noites, para o céu: uma infinidade de pontos luminosos, uns maiores, outros menores, quase todos cintilantes, um espaço enorme, onde sabemos que a Terra é apenas um ponto como todos os outros. É um espetáculo único, não há sítio no céu onde não haja uma luzinha por menor que seja e essa luzinha pode ser tanto ou maior que a nossa Terra. É uma grandeza que nos dá uma sensação incómoda de pequenez, do nada que somos.

Identificar constelações no firmamento é uma atividade que atrai muita gente e é um bom motivo para convívio e partilha. Nesta emissão de selos foram contempladas as constelações do Cruzeiro do Sul, Touro, Orion, Carneiro, Triângulo e Matariki. São conhecidas no mundo inteiro, talvez com exceção da última, a Matariki, muita ligada à Nova Zelândia, à cultura Māori, em cuja língua o nome está escrito. O Novo ano na Nova Zelândia começa no dia em que a Matariki fica visível (fins de junho ou inícios de julho), feriado nacional celebrado por todo o país. 

Pergunto ao Google (ainda não uso o ChatGPT) qual é o lugar mais escuro do nosso país. A resposta vem rápida e clara: é a “Reserva Dark Sky Alqueva”, no Alentejo - o melhor lugar de Portugal para observação de estrelas, complementa com a ajuda da IA. Coloco o nome (tal como está, em portuglish, uma linguagem cada vez mais usada nos dias que correm) na linha de comandos, entro no site, e lá está a informação toda, os horários, as sessões com guia, os preços, o telescópio, as marcações, enfim, já não preciso de ir à Nova Zelândia para ver o céu com olhos de ver, fica-me só a faltar o dark completo, mas também não podemos querer tudo. Mais uma pesquisa e sou informado que Portugal é o país com mais poluição luminosa da Europa.

É assim o mundo dos selos. Leva-nos à Nova Zelândia, à África do passado e traz-nos de volta a Portugal, muito provavelmente à zona do Alqueva, onde um dia destes, nas condições certas, alguém vai estar a olhar para o céu.