No artigo que vos escrevi em setembro de 2025, concluía com a seguinte frase: “Ontem, dia 28/09/2025, cheguei a mais uma camada profunda da minha cebola. Talvez por essa razão, hoje tenha decidido escrever-vos sobre a verdadeira viagem dos sentidos: a minha viagem.”
Durante as últimas férias visitei, além da Albânia, a Grécia, mais concretamente a ilha de Paros e Atenas, dois locais que já tinha visitado no ano de 2023.
Decidi, pois, escrever-vos (ainda que parcialmente) sobre estas viagens: Aquela que percorri internamente desde setembro de 2025 e estas que percorri pela Albânia e pela Grécia.
Já sabem que se eu não viajasse fisicamente, demoraria muito mais tempo a viajar pelo meu espaço interno e essa é uma das motivações, a par do conhecimento de outros locais e pessoas, que me conduz a destinos diversificados.
O resto dos dias percorridos pela Albânia foram dias de paz. O destino escolhido foi a zona balnear de Saranda, no sul do país, num hotel familiar, com vista para o mar e para a ilha de Corfu, na Grécia. Confesso que o litoral da Albânia, embora muito belo, não justifica uma viagem àquele país. A abertura do país ao exterior e a perspectiva óbvia do desenvolvimento do turismo, deu lugar à construção desenfreada e caótica, comparável com Quarteira e Albufeira, no Algarve. Porém, a escolha de um hotel isolado permitiu desfrutar da tranquilidade que o mar sempre aporta. São, aliás, estes os momentos em que acabo por mergulhar dentro de mim. É no encontro da paz interna, das conversas com as pessoas que me acompanham e da leitura compulsiva dos livros que reservo para ler no período de férias, que eu percorro mais alguns dos degraus que aprofundam a minha consciência.
De Saranda, voltei a Tirana, local que já visitara. A capital da Albânia, contrariamente ao seu litoral, vale indiscutivelmente uma visita. A cidade respira modernidade e requinte: os imóveis são recuperados com a manutenção da sua traça original; novos edifícios de arquitetura moderna são perfeitamente integrados na construção pré-existente; as ruas são ocupadas, dia e noite, por albaneses que desfrutam da sua liberdade, misturados com alguns turistas curiosos com a história deste país. É verdade que pouco há a visitar, mas as visitas possíveis revelam-nos em pormenor a história integral da Albânia. Vale, pelo menos, sempre a pena visitar os dois bunkers, quer pelo espaço, quer pela exposição histórica, que inclui, aliás, uma simulação de uma sala de “interrogatório”, entre outras, muitas curiosidades, e a Casa das Folhas, que além da sua deslumbrante arquitectura, apesenta uma especial curiosidade: contruída inicialmente para a instalação de uma moderna maternidade, o que ocorreu durante um pequeno período antes do início da ditadura, acabou por concentrar os serviços secretos albaneses neste período. Agora, na Casa das Folhas, podemos reconstruir a história destes serviços secretos, bem ver o original de muitos dos equipamentos utilizados para espiar e fiscalizar a população albanesa, garantindo o extermínio dos dissidentes (ou alegados).
De volta a Portugal por poucos dias, rumei à Grécia onde permaneci uma semana. Guardo, porém, esta viagem para o próximo mês, uma vez que pretendo fazer um paralelismo entre estes dois países no que diz respeito às suas praias e às típicas férias de veraneio, cuja preferência, desde já adianto, será, indiscutivelmente, atribuída à Grécia.
Começo, porém, como terminei.
Hoje, dia 30 de Setembro de 2026, posso afirmar que descasquei mais uma camada profundíssima da minha cebola. Faço-o com recurso ao trabalho pessoal, evidentemente. Todavia, este trabalho não seria possível sem que, isolada do trabalho e do stress, eu não pudesse “ver-me” na lupa da minha vulnerabilidade.
As viagens dos sentidos nunca têm um fim. Queiramos nós mergulhar no mar da nossa inconsciência.
Mia Jorge