A viagem à Albânia foi uma decisão de última hora. Na verdade, a minha intenção era viajar até ao Peru, mas quando me dispus a, finalmente, comprar as viagens de avião, o preço quase tinha duplicado, pelo que guardei o sonho para outro momento qualquer. Uma vez que a Albânia era um destino há muito adiado, decidi que seria este o ano de conhecer este país.
Cultivo sempre este interesse em conhecer os países cujas visitas nos estiveram vedadas por muitos anos.
De facto, a Albânia é um país que viveu durante 47 anos – 1944 até 1991 - num regime totalitário, comunista, liderado por Enver Hoxha. Durante estes anos, a Albânia tornou-se um dos países mais isolados do mundo, rompendo relações com a União Soviética em 1961 e posteriormente com a China em 1978, mantendo um controle rígido sobre a sociedade e limitando severamente o contato com o exterior.
A história da Albânia não se reconduz, porém, a este período histórico do comunismo. A sua história conta com diversas vicissitudes, de tal sorte que apenas em 1912 é declarada a sua independência.
Vou, contudo, restringir-me ao período liderado por Enver Hoxha e ao período de domínio Otomano, com início no século XV por razões que se prendem com o conteúdo do que pretendo aqui partilhar convosco.
De facto, quando comecei a organizar a viagem, depressa percebi que a Albânia, à semelhança do que ocorre com a maioria dos países, tem características geográficas diferenciadas e, naturalmente, uma diversidade de locais para visitar que implicam uma escolha de acordo com as nossas preferências e necessidades no período de férias.
Constatei, assim, que no Sul do país existem duas cidades cuja arquitectura foi classificada pela Unesco como Património Mundial e foi por aí que decidi começar a minha viagem. As cidades em causa são Gjirokastër ou Gjirokastra (grego) e Berat ou Berati.
A primeira é conhecida como a cidade das Pedras, uma vez que a maior parte dos telhados das suas casas são construídos em Pedra. Lamentavelmente, e embora pudéssemos esperar uma cidade totalmente preservada, algumas casas muito belas do período Otomano estão degradadas.
Da Cidadela, bem preservada, avista-se o rio Osum, os telhados da cidade “velha” e aquela que é agora a cidade nova. Existe ainda um antigo bazar, originalmente construído no século XII, destruído por um incêndio e reconstruído no século XIX. Hoje é uma área com imensas lojas e restaurantes, alguns de entre eles instalados nas mais de 200 casas classificadas como monumentos culturais.
É também nesta cidade que pudemos apreciar um bunker mandado construir por Enver Hoxha em 1970 com receio de uma guerra nuclear. Este país tem cerca de 177.000 bunkers construídos durante o período do comunismo e que testemunham a autêntica paranoia de invasão que atemorizava este ditador. Voltando ao Bunker que se encontra em Gjirokastër, este tem 800 metros de comprimento, contém 59 quartos e encontra-se no seu estado original, o que justifica a sua visita.
E, por fim, não há como não ir à Ali Pasha Bridge (parte de um aqueduto que sobreviveu à época Otomana). Este caminho, porém, não é aconselhado a pessoas que não suportem grandes caminhadas e calor em excesso. Contudo, a visita a esta ponte e a paisagem que dela se avista, vale muito a pena a penosa subida íngreme a que nos temos de sujeitar para lá chegar.
De lá, partimos para Berat ou Berati, cidade cujo centro histórico foi igualmente reconhecido como património mundial pela Unesco pela diversidade e característica única da sua arquitectura. Conhecida pela cidade das mil janelas, a sua visita vale muito a pena, também, para observar as ruas construídas com paralelepípedos e a sua fortaleza onde encontramos hotéis, casas particulares e muitos restaurantes com vistas imperdíveis da cidade.
Embora a viagem à Albânia não se tenha esgotado nestas cidades, creio que ambas justificam, histórica e arquitectonicamente uma viagem a este país.
Em ambas, resulta evidente, que este povo convive de forma sã e sem quaisquer conflitos com diversas religiões, facto do qual, aliás se orgulham. É curioso visitar, por exemplo, igrejas ortodoxas, mesquitas e ouvir através de altifalantes ( o que também acontece em Tirana, capital da Albânia), enquanto passeamos pelas cidades, a reza dirigida a Meca.
E este facto serve para encerrar este artigo que já vai longo.
Durante os 47 anos de comunismo, Enver Hoxha proibiu a prática de todos os cultos religiosos e transformou igrejas e mesquitas em locais destinados a outras actividades.
Como se vê, porém, não foi um período bastante para evitar que o povo, na primeira oportunidade, retomasse as suas práticas religiosas.
A Albânia é, pois, um país a visitar. Pela sua cultura, pela sua diversidade, pela sua gastronomia e pela simpatia do povo, que nos olha nos olhos e sorri.
Mia Jorge