Corria o ano de 1993. Terminara a Licenciatura em Direito. O Osvaldo Lopes, amigo de longas horas de estudo, convidou-me para ir consigo para Cabo Verde. E lá fomos. Eu, ele e a namorada que arranjara recentemente, minha amiga.
O Osvaldo vivia, e vive, aliás, numa das nove ilhas habitadas de Cabo Verde, a Ilha de São Vicente, na cidade do Mindelo.
Das recordações já longínquas que guardo de São Vicente, registo as praias solitárias de areia preta, o Festival da Baía das Gatas, as noites compridas onde aprendi a dançar as músicas africanas, que ainda hoje, trinta e dois anos depois, me fazem caminhar até ao B’Leza, e os passeios rotativos e morosos, a seguir ao jantar, na praça popularmente conhecida pela Praça das Estrelas em homenagem aos candeeiros que têm canteiros em forma de estrelas.
O Festival da Baía das Gatas foi criado em 1984 pelo músico Vitor Mendes. À data em que visitei Cabo Verde era já um Festival mundialmente conhecido e que tem lugar, exactamente, num local chamado Baía da Gatas, uma baía natural, que fica a menos de 10 km a leste da cidade do Mindelo. O nome desta baía deriva da abundância nas suas águas de uma espécie de tubarão denominado tubarão-gata.
Este facto não impediu o meu amigo, Osvaldo Lopes, de pescar com um arpão peixes para a nossa refeição.
Experimentei aí, no festival, e na viagem por Cabo Verde, o “Império dos sentidos”. O sol na pele, o contacto quente dos corpos nas danças ou, simplesmente, a experiência de dançar descalça, junto ao mar, embalada pela música que entoava no palco, o convívio com a natureza mais profunda e, inclusivamente, com as vísceras dos peixes acabados de pescar.
Nesta viagem, além de São Vicente, visitámos a Ilha de Santo Antão, a única de vegetação luxuriante, e a Ilha do Sal. Confesso, porém, que as memórias das paisagens são residuais se comparadas a todas as emoções que me preencheram enquanto lá estive. Sei que durante muitos anos me recusava a ver fotografias da minha estadia em Cabo Verde, como se esse encontro com as imagens me despertasse emoções perdidas, sentidas, que sabia que não voltaria a viver. Foi o caso. Há na minha vida um momento anterior e posterior à minha viagem a Cabo Verde. Porventura pelo facto de o meu amigo estar muito enamorado, acabei por passar muito tempo na minha própria companhia, o que despertou em mim, a insegurança de me saber “sozinha” num território desconhecido e perante pessoas que não me eram familiares. Mas Cabo Verde devolveu-me, na coragem de viver insegura, a liberdade com que me movo ainda hoje, o prazer do silêncio e da solidão.
Nunca mais voltei a Cabo Verde. O Osvaldo Lopes continua a insistir para que eu volte. Certo é que ainda lá guardo amigos, decorridos todos estes anos. Voltar a Cabo Verde não é, porém, uma certeza.
Continuo sem saber se devemos voltar aos locais onde fomos muito felizes.
Mia Jorge