O Pico surpreende-nos a cada momento, ora se esconde, ora se descobre. As nuvens correndo no seu ritmo, atravessam o dorso da montanha. Anéis suspensos sobre o cume, lembrando os anéis de Saturno. Próximo do céu e sempre majestoso, contemplando o mar azul.
No périplo pelos Açores, o Pico impressionou Raul Brandão: “Esta ilha negra e disforme apoderou-se dos meus sentidos. Tudo o que a princípio me repelia, o negrume, o fogo que a devora, o mistério, tudo me seduz agora. O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atração. É mais que uma ilha – é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo – é outro Adamastor como o Cabo das Tormentas.
Apago todas as tintas do quadro: só quero o Pico diante de mim, negro e dramático, roído da cinza que há-de acabar por devorar seres e coisas, deixando-o a prumo no céu, com a carcaça da catedral ao abandono na praia.”
(Raul Brandão, Ilhas Desconhecidas; 1926)
Ó Pico de gelo branco,
Que se não quer derreter;
Tu já foste meu amor
E hás-de tornar a ser.
Ó Pico, rocha tão alta,
Onde a neve faz tijolo,
Queredes casar, menina,
Sem saber tender um bolo?!...
Ó Pico, rocha tão alta,
Onde a neve faz torrão,
Menina, queres-te casar
Mas não sabes tender pão.
(Cancioneiro Geral dos Açores)
INVOCAÇÃO
Oh montanha soberba, a mais gentil do mundo!
À altura em que tu és
Deixa-me a mim subir, por ver do azul profundo
Quem existe a teus pés!
(…)
Assim pensei ao ver tua fronte erguida
De nuvem coroada.
Com perspectivas taes que são o enlevo e vida
Da pátria minha amada
Tu que és do mundo inteiro o mais gentil dos montes,
E a quem eu glorifico,
Desdobra ao meu olhar teus vastos horizontes,
Que parto a ver-te, oh Pico!
(Manuel de Arriaga [ex-Presidente da República] In In Adélia Goulart et al., Pico Poética da Montanha, Cooperativa Desafios da Montanha e Associação para a Salvaguarda do Património Cultural de São João – O Alvião)
ILHA DO PICO
Há na montanha um deus desconhecido
Um deus que não tem voz mas não se cala
Seu silêncio é de fogo mal contido
Seus sinais são mistérios e se fala
Há um tremor de poema pressentido.
Rumos e ritmo que ninguém dedilha
Eu sei que a terra treme e não se sente
Há um coração que bate e fibrilha
Como um verso a pulsar que de repente
Se descobre no Pico e é o deus da illha.
(Manuel Alegre, In Adélia Goulart et al., Pico Poética da Montanha, Cooperativa Desafios da Montanha e Associação para a Salvaguarda do Património Cultural de São João – O Alvião)
Alevanta-se o Pico como a lava
Intacto o arredondou a espuma espessa.
Uma nuvem de neve o tinge, e a brava
Onda o asperge de aromas na cabeça.
Das calhetas de peixe e loiro vinho
Tiram seu pão os homens. O moinho
Usa a vela do barco. E, a maré cheia,
Com sinais de alto mar no lombo, e linho
No fio árduo e mortal, sangra a baleia.
(Vitorino Nemésio, In Adélia Goulart et al., Pico Poética da Montanha, Cooperativa Desafios da Montanha e Associação para a Salvaguarda do Património Cultural de São João – O Alvião)