No Livro dos Cantares está coligida a poesia do Cancioneiro chinês que abarca um milénio de produção poética (1700-600 a. C.), sendo um livro dos mais antigos e famosos da China e de todas as civilizações, resultando da produção de vários poetas. O Livro dos Cantares é um Cancioneiro clássico, cujas canções abordam aspectos da vida individual, familiar, religiosa, social e política dos chineses, canções baseadas em quatro tópicos, Deus, Pátria, Família e Sociedade. Os temas do casamento, da saudade, da natureza e do tempo inspiraram muitas canções. A mulher, na ausência do marido, confessa o seu sofrimento, traduzido no próprio desleixo no trajar, porque não tem “o seu Senhor” fazendo lembrar a poesia trovadoresca, as Cantigas de Amor e de Amigo. A saudade provocada pela ausência do amado é temática recorrente tanto nas canções do Cancioneiro chinês como nas cantigas de Amor e de Amigo.
Atribuiu-se a Confúcio parte da seleção dos Cantares, opinião refutada pelo missionário escocês, James Legge. Segundo vários historiadores, Confúcio teria selecionado as canções ligadas aos bons costumes.
VENTO DA MANHÃ
Sopra o vento da manhã
Inclinando a mata ao norte.
Eu, sem ver o meu marido,
Vivo em tristeza e saudade!
Como assim! Como é possível!
Que de mim tanto se esqueça?
Nos montes há carvalhais,
Nas várzeas quanto se enxerta
Eu, sem ver o meu marido.
De mágoa, não gozo nada
Como assim! Como é possível!
Que de mim tanto se esqueça?
Dá-se a ameixeira nos montes,
Nas sebes o pilriteiro
Eu, sem ver o meu marido,
Ando de alma estontecida
Como assim! Como é possível!
Que de mim tanto se esqueça?
O GRILO
O grilo mora na sala:
Acerca-se o ano do fim.
Se não gozamos agora,
Vão-se os dias e os meses!
Mas nada gozo demais!
´Stá primeiro a obrigação!
Gozemos, mas sem excesso:
Homem bom é timorato.
O grilo mora na sala:
Acerca-se o ano do termo
Se não gozamos agora,
Os dias e os meses somem-se.
Mas nada gozar demais!
Atenção também aos outros!
Gozemos, mas sem excesso:
Homem bom é dedicado.
O grilo mora na sala:
Parou o carro e o serviço.
Se não gozamos agora,
Não é o tempo que espera!
Mas nada gozar demais!
Haja atenção aos que sofrem!
Homem bom é compassivo.
NAS MARGENS DA REPRESA
Nessas margens da represa,
Crescem os juncos e os lótus.
Uma pessoa tão bela
Porque assim há-de sofrer?
Dia e noite sem acção.
Dos seus olhos e nariz,
Tal qual chuva são as lágrimas.
Nessas margens da represa,
Há juncos e valerianas.
Uma pessoa tão bela
Encorpada e sinuosa,
Dia e noite sem acção.
Penando mágoas sem fim!
Nessas margens da represa,
Há juncos que estão florindo.
Uma pessoa tão bela
Alentada e de respeito,
Dia e noite nada faz,
Às voltas co´o travesseiro!
(She Keng. Livro dos Cantares. Introdução, texto em alfabeto e caracteres. Tradução portuguesa e notas críticas por Joaquim Guerra, S. J. Macau, 1979.)