“Que é o tempo? Só sei a resposta quando não me perguntam” ( Santo Agostinho)
O tempo é aquilo em que se desenrolam os acontecimentos, e assim o modo de ser fundamental dos seres naturais é a mudança, o movimento contínuo, o mudar de lugar. O tempo é um desenrolar, cujos estádios se referem entre si como um antes a um depois. O tempo é interpretado como presente, o passado como o que já-não-é-presente e o futuro como um ainda-não-presente indeterminado: o passado é irrecuperável e o futuro indeterminado.
Na poesia, o tempo não é apenas uma medida cronológica, ele é uma força que afeta a vida e as emoções. Os poetas frequentemente usam a passagem das estações e os ciclos naturais para simbolizar o tempo. Na poesia, o tempo é frequentemente associado à reflexão sobre a existência humana.
Mais do que definições e explicações, a poesia, através de metáforas, dá-nos a imagem do tempo, refletida nas nossas vidas, com versos que exploram a passagem do tempo e a efemeridade das experiências, convidando o leitor a contemplar a inevitabilidade das mudanças: “o tempo é um rio que nunca para, levando na correnteza sonhos e esperanças”; “o tempo é um maestro que rege a sinfonia do nosso existir”; “como folhas ao vento, os dias se vão, deixando apenas lembranças”; “cada momento é um estilhaço de eternidade, um fragmento da nossa essência”; “o tempo é um artista, esculpindo nossos rostos e destinos”; “o tempo é um contador de histórias, e cada vida é um capitulo”; “na dança do tempo, somos todos bailarinos do efémero”; “cada dia é uma página em branco, escrita com a tinta da nossa ação”; “no silêncio do tempo, escutamos o murmúrio das nossas lembranças”; “o tempo é a moldura da vida, definindo a beleza dos instantes”;
(ideias inspiradas fundamentalmente nos mestres Heidegger e Pessoa)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo de esperança;
Do mal ficam as mágoas da lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão do verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
(Luis de Camões. In Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portugesa, Campo das Letras, - Editores, S. A. 1999)
RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(Cecília Meireles, Viagem, 1939)
A TEIA DO TEMPO
A máquina de costura na montra
de copenhaga lembrou-me as tardes da infância,
quando as mulheres costuravam na sala interior, evitando
a luz para que o desejo de fugir não
interrompesse o trabalho que seguia o ritmo
rápido das suas mãos, tão brancas como a linha que por
elas passava. Não sei o que aconteceu à máquina
de costura, e as mulheres envelheceram como as paredes
em que a cal desbotou com os anos, deixando
à vista o reboco e as pedras. No entanto, a casa ainda se mantém
de pé, ao contrário de muitas dessas mulheres, que vi passar
à minha frente, com uma lentidão ritmada já não
pelo movimento da máquina de costura mas pelo dobrar
dos sinos. Talvez algumas delas vestissem ainda a roupa que
tinham costurado para os dias de festa; e o lenço que lhes tapava o rosto
tivesse talvez saído da máquina que enferrujou no armazém onde
ficou esquecida, até este dia, em que vi a montra de Copenhaga
e ouvi, por trás do vidro, os risos e os lamentos
das mulheres que espreito na sala obscura
desta memória de infância.
(Nuno Júdice, O Mito da Europa, Publicações Dom Quixote, 2017)