A Lusofonia é um termo que se refere ao conjunto de países e comunidades que têm a língua portuguesa como idioma oficial ou como uma das línguas faladas, englobando também a cultura, a história e os laços que unem essas nações. Através da Lusofonia há uma conexão entre pessoas de diferentes países lusófonos, com um sentimento, como uma alma, como um desejo de viver em conjunto, partilhando um passado comum, facilitando a comunicação, o comércio e o intercâmbio cultural e desempenhando um papel importante como uma ferramenta de cooperação entre os países lusófonos.
Cada país lusófono possui a sua identidade própria, uma base cultural comum, embora diversa, pois a Lusofonia é marcada por uma grande diversidade linguística e geográfica com influência na literatura, na música e em outras formas de expressão artística.
Neste sentido, apresentamos três poemas em língua portuguesa, mas com diversas marcas próprias de expressão linguística.
LUSOFONIA
rapariga s. f., fem. de rapa; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena de café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever esse
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, pra que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar o
atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga do
café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, 2008)
Angolares
Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.
Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.
Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andantepor sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.
E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas4
as gibas pestilentas
mas não tem terras.
P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
(É nosso o solo sagrado da terra)
(Alda Espírito Santo - poeta são-tomense)
Poema do Baile (Milagre de Nossa Senhora da Muxima)
Te pedi um beijo
disseste não e partiste
xinguilando com tuas amigas
lá no fundo do salão.
Fiquei triste.
Muito triste mesmo.
Me deu vontade de zunir
perder na noite
me afogar nas águas da kianda.
Mas,
quando o disco do senhor Braguêz
tocou aquela música
o meu olhar encontrou o teu olhar
e, sem te pedir
vieste com tua mão segurar minha mão
e me puxar no meio salão.
Rodopiamos loucamente embevecidos
Nossos corpos se apertaram
corpo no corpo
Nossos olhos
Se olhavam olhos nos olhos
Teus seios duros maboque
transmitiam um calor
que não era o calor da noite.
Na tua boca
sorriso maroto
A minha boca calada
te querendo dizer palavra bonita.
Mas palavra não saía.
e, da minha cabeça zunia uma prece
para Nossa Senhora da Muxima
Ah! Nossa Senhora da Muxima,
por favor, me acode
por favor me ajuda!
E, no meio do salão
nossos corpos cada vez mais aconchegados
nossos braços nos apertando, cada vez mais forte
nossos corações cada vez mais apressados
batendo que nem compasso de rumba.
nossos lábios cada vez mais perto
E num repente,
te roubei aquele beijo primeiro.
Paramos no meio do salão
e na nossa volta já nada existia
parecia: o mundo parou!
Ah louca loucura!
Afinal me tinhas mentido naquela hora
quando disseste não!
Mas Nossa Senhora da Muxima
ouviu meu coração
e te obrigou a falar
a verdade do teu coração!
(Manuel C. Amor – poeta angolano)