Home Cardus Edição 157, maio 2026

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul


Pode a Gramática ser Poética?

A gramática abrange o estudo dos elementos de uma língua e das suas combinações; por um lado descreve o uso atual de uma língua, por outro estabelece as normas de uso, para falar e escrever corretamente, estando assim a gramática do lado denotativo da linguagem.

A poesia é fundamentalmente criativa, sem limites para o processo imaginativo de forma a atingir um objetivo estético. A poesia desafia todas as normas, mesmo algumas das suas normas tradicionais, através da sua liberdade criativa, com recurso a vários processos de exploração da linguagem, do ritmo da palavra à plurissignificação, da ambiguidade às metáforas e ao sentido conotativo, evocando sentimentos e reflexão sobre a vida e sobre o mundo. Deste modo, a poesia tem a capacidade de transformar a realidade e mesmo elementos como a gramática numa paisagem poética.

GRAMÁTICA: O VERBO

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o anunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

 

GRAMÁTICA: O SUBSTANTIVO

Do ponto de vista funcional, sirvo-me do substantivo
para designar uma totalidade ou uma parte dos seres,
sem pensar na sua qualidade ou na sua totalidade. Posso
aplicá-lo a ti: e trata-se então de um substantivo
próprio, que me liga ao que tu significas como parte
desta totalidade, desligando-a do espaço
comum para se integrar numa designação que te
faz específica. É como se o substantivo adquirisse
um corpo, e posso tocá-lo, quando o digo, sentindo
a matéria do nome. Mas se o objetivo é colectivo,
o que designa integra todos os seres do mesmo
grupo, e os lobos correm por dentro da alcateia,
os viajantes prosseguem o caminho em caravana,
as pessoas juntam-se em magote, sem que posssa
distinguir, a uns e outros, no que têm de próprio. E
é por isso que prefiro o singular, onde te encontro.

 

GRAMÁTICA: O ADJECTIVO 

Quando pego num cesto de adjectivos escolho
os maiores, que são superlativos; e deles ainda
o maior, que é o aumentativo. Depois, começo
a descascá-lo com a faca do advérbio, até ele
ficar restritivo, e caber na frase, onde se cola
ao substantivo para lhe dar um carácter notável,
a distingui-lo de todos os outros que não passam
de comuns e gerais. Gosto destes adjectivos
que quase passam por substantivos, e se
passeiam por entre os nomes como se eles
precisassem deles. São os adjectivos certos
porque não dão nem tiram nada ao substantivo,
nem aspiram a ser explicativos de nada, como
se soubéssemos tudo sobre a coisa. Porém,
se cortarmos o adjectivo, e o substantivo ficar
tão simples que cai desamparado, como
o pobre a quem roubam as muletas, logo
digo: “Oh pobre homem!” e o homem corrige:
“Oh homem pobre!” E fico sem saber qual
dos dois é ele, enquanto não volto a meter
tudo no cesto, e faço do homem um simples
substantivo, coberto com o substantivo simples.

 (Nuno Júdice, A matéria do poema, Lisboa: Dom Quixote, 2008)