Música e poesia estão intimamente ligadas e numa certa perspetiva são como que duas faces de uma única arte: ritmos, melodias, harmonias, métricas e sonoridades fundem-se em expressões líricas perenes no tempo e inscritas na cultura ao longo de gerações. A rima, o ritmo e a métrica são elementos fundamentais que fazem da poesia uma forma de arte intrinsicamente ligada à música.
Na história e na cultura dos povos antigos, as composições poéticas eram feitas para serem cantadas e a poesia estava diretamente relacionada com o sentido primitivo da palavra poética, o canto; a poesia e a música caminham lado a lado. Tal interseção faz-nos pensar que é praticamente impossível dissociar música e poesia e expõe uma relação profunda e antiga. Na Grécia Antiga, os poetas recitavam seus versos com acompanhamento musical, e esses momentos eram celebrados nos teatros e nas praças públicas. Os cânticos das tribos medievais, dos cantos gregorianos e as canções dos trovadores trouxeram à tona uma forma de poesia que era cantada e acompanhada por instrumentos. Os trovadores, que eram poetas e músicos, usavam essa combinação para expressar sentimentos amorosos e contar histórias de bravura; a conexão entre as duas artes manifesta-se indistintamente de forma inovadora e recebe forte influência de outras experimentações artísticas e de todo contributo da cultura. Desde os tempos antigos, a poesia era uma forma de comunicação que envolvia não apenas palavras, mas também sons e ritmos que tornavam a apresentação ainda mais impactante e que de uma forma mais expressiva se manifestou em alguns movimentos literários, como no caso do simbolismo.
VIOLONCELO
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros,
Soidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.
(Camilo Pessanha, 'Clepsidra)
Tarde de Música
Só Schumann, meu Amor! Serenidade…
Não assustes os sonhos… Ah!, não varras
As quimeras… Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade…
Liszt, agora, o brilhante; o piano arde…
Beijos alados… ecos de fanfarras…
Pétalas dos teus dedos feito garras…
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!
Eu olhava para ti… “É lindo! Ideal!”
Gemeram nossas vozes confundidas.
– Havia rosas cor-de-rosa aos molhos –
Falavas de Liszt e eu… da musical
Harmonia das pálpebras descidas,
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos…
(Florbela Espanca, Charneca em Flor)
MÚSICA
Transforma-se o ouvinte na música amada,
nas suas doces entoações, no campo de vogais
que pisa quando avança por entre os ramos
de consoantes que o vento toca como teclas.
E sente o som do nome converter-se em matéria,
só de o dizer para si próprio, vendo surgirem
as formas do corpo, as cores do rosto, o subtil
acordo das mãos num sonhado acorde de dedos.
Assim, do que é um fragmento de ouvido,
um vestígio de memória no ritmo do coração,
uma presença diluída no pensamento
Que a derramou em puro amor, nasce
a música que a tua voz me trouxe quando,
verso após verso, imagem e desejo se juntaram.
(Nuno Júdice)
Um simples pensamento
É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica comigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.
(Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Assírio e Alvim, 2001)