Home Cardus Edição 154, fevereiro 2026

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul


PARTIDA/DESPEDIDA

O tema da partida/despedida é recorrente na poesia portuguesa, no contexto histórico e social da aventura marítima que levou muitos portugueses para terras distantes, deixando as mulheres no cais. Ao longo dos séculos XIX e XX, diversas levas de migração de milhares de portugueses deixaram a sua terra, procurando melhor forma de vida, por diversas zonas da Terra.


SENHORA, PARTEM TÃO TRISTES

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes, os tristes,
Tão fora de esperar bem
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

(João Ruiz de Castelo Branco, Cancioneiro Geral, III, p. 134)


Pedro Barroso


PRA A HABANA

Este vaise i aquel vaise,
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.

Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E pais que non tén fillos
E fillos que nontén pais.

E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará

(Rosalia de Castro, Follas Novas, 1880)


Cuca Roseta (versão em português)


SOBRE UM MOTE DE CAMÕES

Se me desta terra for
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.

Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.

Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.

E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.

(Manuel Alegre, A Praça da Canção, Centelho, 1975)


Carlos Paredes & Cecília de Melo


TROVA DO EMIGRANTE

Parte de noite e não olha
os campos que vai deixar.
Todo por dentro a abanar
como a terra em Agadir
folha a folha se desfolha
seu coração ao partir

Não tem sede de aventura
nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.

De sete avós segue os trilhos
de sete avós que partiram
e numa noite floriram
sete mulheres que murcharam
quando depois sete filhos
mais sete ausências deixaram.

As rugas que o suor cava
não são rugas são enganos
são perdas lágrimas danos
que suar por conta alheia
não compensa nunca paga
quanto suor se semeia.

Em vida vive-se a morte
se o trabalho não dá fruto
morre-se em cada minuto
se o fruto nunca se alcança.
Porque lhe foi dura a sorte
vai para terras de França.

Não julguem que vai contente.
Leva nos olhos o verde
dos campos onde se perde
gente que tudo lhes deu.
Parte mas fica presente
em tudo o que não colheu.

Verde campo verde e triste
em ti ceifou hoje foi-se
em ti ceifou mas a foice
ceifava somente a esperança.
Nem sempre um homem resiste
vai para terras de França.

E vem no vento um lamento
o vento canta cantigas
traz saudades (são ortigas)
no peito de quem as sente.
Deixa um lamento no vento
parte mas fica presente.

Quem lhe dissesse a razão
por que é triste o campo verde
quem lhe dissesse que perde
sempre mais quem julga e crê
ser fatal a condição.
Quem lhe dissesse porquê.

Vai-se um homem vai com ele
a marca duma raiz
vai com ele a cicatriz
dum lugar que está vazio.
Leva gravada na pele
uma aldeia um campo um rio.

Andam as vidas perdidas
quando a própria terra se perde
verde campo triste e verde
onde as mágoas são sementes
e há morte dentro das vidas
que são a vida das gentes.

Ficam mulheres a chorar
por aqueles que se foram.
(Ai lágrimas que se choram
não fazem qualquer mudança).
Já foram donos do mar
vão para terras de França.

(Manuel Alegre, A Praça da Canção, Centelho, 1975)


Carlos Paredes & Cecília de Melo