Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, nasceu em Tavira em outubro de 1890. "Mais alto que Pessoa, com tipo de judeu português, cabelo liso e normalmente apartado ao lado, monóculo”. Engenheiro mecânico ou naval, estudou em Glasgow, trabalhando em Inglaterra, Londres, Newcastle … cosmopolita e viajado, poeta moderno e da vanguarda intelectual, a que transporta em si a angústia da modernidade e o negativismo do novo século, agressivo e inconformista.
A primeira fase de Álvaro de Campos é a fase decadentista influenciada pelos poetas românticos e simbolistas, a inquietação sobre as origens, o “desejo da viagem como fuga e ilusão de movimento.” Segue-se a modernista, o triunfo da máquina e da civilização moderna, com influência de Walt Whitman, o poeta das sensações, e de Marinetti, o poeta do Futurismo, influência presente na Ode Triunfal e na Ode Marítima. A última fase é a “fase da grande intimidade pessimista, a fase onde se acentuam a solidão e o desalento, o desapontamento metafisico de uma gradeza incompreendida.”
Opiário, Ode Triunfal, Ode Marítima, Tabacaria, os grandes poemas de Álvaro de Campos.
POESIA de Álvaro de Campos (excertos):
“Quando olho para mim não me percebo,
Tenho tanto a mania de sentir […]
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente:” (de Soneto)
“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por quê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimento de tristeza” (de Ode Marítima)
“Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Cousas onde há dor e sangue e moléstias
(merda para isso tudo!)” (de A Partida)
“Não sou nada.
Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (de Tabacaria)
“Um dia num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.[…]
Sei isso muitas vezes,
Mas se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?” (de Dobrada à moda do Porto)
A MALA DO POETA
Álvaro de Campos pensou em arrumar a mala. Andava sempre de viagem, e por isso a mala não saía de ao pé da cama, e era para lá que ia a roupa de que ele iria precisar quando desembarcasse do outro lado da Terra, se fosse para lá, ou mais perto, se por cá ficasse. Tavira, Glasgow, Londres, Cairo, e sabe-se lá que mais, com rapazinhos louros ou sem eles, ou ao menos com essa Cecily que, posso confirmar, o ajudou a fazer a mala da última vez que embarcou para Lisboa, e tão bem a fez que ele não voltou a abri-la. Arrumar a mala; e todas as malas de viagem, só para não ter de pensar do que é que me estou a esquecer, quando vou para qualquer lado; e aquilo de que não me esqueci, de certeza, foi de meter na mala que arrumei o Álvaro de Campos, o da edição branca, que é aquela de que me sirvo porque é nela que está o melhor Álvaro de Campos metido na mala da Ática pelo Casais Monteiro e pelo Gaspar Simões, que sabiam o que faziam, mesmo que a mala nem sempre estivesse arrumada como devia ser, mas é isso que dá sabor a quem tem de abrir malas que não lhe pertencem, e ver que há meias que estão certas, que uma gravata não condiz com a camisa, e que quem precisa de aspirina para a dor de cabeça afinal tem é pastilha elástica de uma loja de conveniência, que apareceu no embrulho não se sabe porquê. Mais vale, dizia o Campos, arrumar a mala; mas por que é que o Campos pensava que as coisas deviam estar arrumadas, talvez tivesse arranjado tempo para arrumar a arca. O problema do Pessoa é que não viajava de arca atrás dele, porque se o fizesse teria de arrumar a arca, como se arrumam as malas. Odes no lugar das odes, sonetos com sonetos, e cada heterónimo no seu sítio, sem nada a tirar e acrescentar. Mas ao contrário da mala de Campos, a arca de Pessoa ficou para que outros a arrumassem, e não têm faltado arrumadores porque a arca é grande e cabem lá dentro muitas mãos. Eu é que não preciso de meter a mão na arca, porque basta-me aquela Edição com o cavalinho do Almada, e quantas vezes não montei nele para correr à desfilada, sem sela nem treino, por esses campos que o Campos abriu, de cada vez que fechava a mala e partia para outra, ou mesmo quando voltava, porque a mala é que não saía de ao pé dele. E ainda bem para nós, que não temos de escolher entre a mala e a arca, nem temos de arrumar nada porque, nestas coisas da poesia, a arte está na arrumação com que o poeta desarruma tudo.
(Nuno Júdice, A matéria do poema, Publicações D. Quixote, 2008)