Home Cardus Edição 160, agosto 2026

VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

Antonio

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”

MUSEU DE ETNOLOGIA

“Fintar a vida, descobrindo o imaginário”


Chegou o dia de mais um encontro entre Miguel e Violeta. Como era já costume, Miguel desafiou Violeta a visitar um museu diferente: o Museu Nacional de Etnologia.

O Museu foi criado como instituição em 1965 mas só viria a ser inaugurado em 1976. Localizado no alto do Restelo, oferece uma vista deslumbrante sobre o rio Tejo e alberga um vasto acervo etnográfico com especial representatividade das culturas africanas e de alguns povos indígenas da Amazónia brasileira.

 Miguel estava especialmente entusiasmado com esta visita.

– Este museu é particularmente interessante porque nos ajuda a compreender melhor os povos representados nas antigas colónias portuguesas. Quando conhecemos a sua riqueza cultural, percebemos que muitos estereótipos e ideias difundidos ao longo da História não correspondiam à realidade.

– Imagino que seja uma visita que nos faça refletir bastante – comentou Violeta.

– Sem dúvida. Vamos entrar e tirar as nossas próprias conclusões.

Continuaram a subir em direção ao museu, contemplando a paisagem em redor.

– Primeiro – continuou Miguel –, vamos visitar uma exposição dedicada ao futebol, mais concretamente à participação de jogadores negros africanos, naturais de Moçambique, no Campeonato do Mundo de 1966, em Londres.

– Lembro-me bem do Eusébio. Quem eram os outros? – perguntou Violeta.

– O Coluna, o Hilário e o Vicente. O sucesso destes jogadores foi amplamente utilizado pelo Estado Novo para reforçar a ideia de que Portugal e as suas colónias formavam um só povo. A exposição ajuda precisamente a compreender esse contexto histórico.

Sorriu enquanto apontava para a entrada do edifício.

– E agora que já estamos a chegar, vou apresentar-te o Gonçalo Amaro, diretor do museu e meu amigo.

Após terem sido recebidos pelo diretor do museu, que estava na receção, este deixou-os à vontade para visitarem as exposições, começando pela temporária "Fintar a Vida".

Eusébio é soldado
Se for preciso meterá “golos” na cabeça dos inimigos de Portugal

A exposição revelou-se muito interessante e educativa. Através de fotografias dos jogadores, de notícias e de relatos da imprensa da época, permitia compreender não só o percurso destes atletas, mas também o contexto social, cultural e político em que cresceram e iniciaram a sua carreira em Moçambique. Era uma oportunidade para conhecer melhor o ambiente que rodeava estes jogadores antes de se tornarem figuras de destaque do futebol português.

Ao mesmo tempo, constituía uma verdadeira viagem ao passado, fazendo reviver alguns dos momentos mais marcantes do Campeonato do Mundo de 1966 e homenageando atletas que, pelo seu talento e contributo para a história do futebol, continuam a ser recordados até aos dias de hoje.

E a visita prosseguiu pela exposição “Desconstruir o Colonialismo, Descobrir o Imaginário”.

Na folha de sala podia-se ler:

«Esta exposição enuncia os mitos e explica as realidades coloniais, revelando, através do saber histórico, as linhas de força do colonialismo português dos séculos XIX e XX…»


Máscaras do Mali

À medida que percorriam a exposição, Miguel e Violeta deparavam-se com grandes painéis repletos de informação que convidavam à reflexão sobre o colonialismo português e os imaginários que o sustentaram. Apesar da abundância de texto exigir alguma atenção e tempo de leitura, o seu conteúdo revelava-se extremamente esclarecedor. Para quem desejasse aprofundar o tema, a visita podia ser complementada com o livro disponível na loja do museu.

Depois de terminarem a exposição temporária, seguiram para as exposições permanentes: as Galerias de África e as Galerias da Amazónia, deixando as Galerias da Vida Rural para uma próxima visita.

Nas Galerias de África e nas da Amazónia os objetos interpelam fortemente, desde os utensílios de trabalho, aos objetos decorativos ou dos rituais, às máscaras, há muito para olhar, ver e sentir. É uma viagem no tempo por locais distantes e onde os objetos são construídos com materiais locais, muito coloridos e usados em cada momento da vida daqueles povos. Há muita magia nesta visita.

- Vais ficar surpreendida com as reservas. São uma das verdadeiras pérolas deste museu, mas ficam para depois do almoço. Será uma boa oportunidade para conversarmos sobre o que já vimos e sobre o que ainda nos espera.

Durante o almoço na cafeteria do museu Gonçalo Amaro contou-lhes que as coleções do Museu Nacional de Etnologia constituem uma referência no seu género e incluem objetos provenientes de cerca de oitenta países. Explicou que o museu permite aos visitantes viajar pelo mundo através das suas coleções, conhecendo diferentes povos, culturas e modos de vida.

Acrescentou ainda que, numa fase inicial, o museu estava sobretudo vocacionado para o estudo das minorias étnicas dos antigos territórios ultramarinos portugueses, com especial enfoque em África. Contudo, com o passar dos anos, foi alargando o seu âmbito, inspirando-se também no modelo do Musée de l'Homme, em Paris, e enriquecendo as suas coleções com peças provenientes de outras regiões do mundo, nomeadamente da Amazónia.

Acabado o almoço, Violeta e Miguel entraram num mundo mágico: as reservas do museu. Nesta viagem deslumbrante foram guiados pela técnica do Museu, brasileira, Dra. Octávia, uma mulher extremamente competente e que “transpirava” amor pelo acervo e a alma de uma verdadeira museóloga.

As reservas de África eram deslumbrantes. Organizadas em grandes vitrinas iluminadas e mantidas à temperatura adequada para a conservação das peças, revelavam um património de enorme riqueza. Objetos provenientes de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné permitiam observar os artefactos utilizados por diferentes povos nas mais variadas ocasiões, desde o quotidiano aos rituais.

O acervo é constituído por cerca de 50.000 peças, um número impressionante que provoca uma certa vertigem. A abundância dos objetos e o significado cultural e espiritual de muitos deles conferem àquele espaço uma atmosfera quase sagrada.

Foi igualmente emocionante ver o brilho nos olhos da Dra. Octávia, profunda conhecedora da Amazónia, enquanto os guiava pelos artefactos dos diferentes povos desta vasta região do mundo. O colorido das peças, as penas de aves, a delicadeza dos adornos e o simbolismo dos objetos rituais criavam uma atmosfera envolvente que os deixava sem fôlego.

Entrar naquele universo foi uma descoberta fascinante e uma experiência difícil de esquecer.

Violeta estava deslumbrada.

– Hei de voltar. Quero trazer aqui as minhas filhas e também muitas pessoas da ONG onde colaboro, que trabalha com estudantes dos PALOP e com mulheres africanas a quem dou aulas no Bairro Moinho das Rolas. Mas penso que todos deveriam conhecer este museu. É uma visita que nos faz viajar por diferentes culturas e compreender melhor o mundo.

Antes de saírem, Violeta reparou ainda nas comodidades que o museu oferecia aos visitantes: parque de estacionamento, cafetaria com serviço de almoços e um agradável espaço exterior, que convidava a prolongar a visita.

Miguel sorriu.

– Fico muito contente por teres gostado. Já estou a pensar na nossa próxima visita. Que tal o Museu de Artes Decorativas?

Violeta riu-se.

– Se todas as visitas forem tão enriquecedoras como esta, já podes começar a marcar a próxima.

Ao deixarem o museu, o Tejo brilhava ao longe, como se também ele guardasse memórias de tantos povos e culturas.

Miguel e Violeta caminharam em silêncio durante alguns instantes. Não era um silêncio de quem já não tinha nada para dizer, mas de quem precisava de tempo para guardar tudo o que tinha acabado de descobrir.

Afinal, há museus que se visitam... e há museus que permanecem connosco muito depois de a visita terminar.

Escrito a 4 mãos - continua