Miguel está a almoçar com Violeta num restaurante italiano próximo do Padrão dos Descobrimentos, em Belém, num belo dia primaveril. A conversa é claramente sugerida pelo cenário envolvente.
— Sabias que o Padrão dos Descobrimentos que vemos hoje não é o original? O primeiro, e provisório, foi erguido em 1940, para a Exposição do Mundo Português. Este veio depois, já em pedra, mas manteve o traço de Cottinelli Telmo e as esculturas de Leopoldo de Almeida.
— Sim, e não deixa de ser curioso como esta área foi totalmente reconstruída para a exposição de 1940 e que acabou por não ter muita aceitação no resto do mundo.
— Pois… e com razão. Enquanto a Europa ardia em guerra contra Hitler, Portugal preferia fingir que nada se passava e celebrar um passado glorioso.
— Como se o tempo tivesse parado.
— Salazar não imaginava que, com o fim da guerra, esse passado começaria a desfazer-se — colónia a colónia.
— Teríamos muito para lembrar de um passado sombrio.
O Tejo seguia indiferente, e por momentos ninguém disse nada.
— Mudemos agora de assunto, sim? Estou com muita vontade de visitar o MUDE. Já há muito tempo que não vou lá. Já lá foste depois da remodelação? Eu ainda só o conheço de antes das obras — mas lembro-me bem das coleções de design e de moda, com peso até a nível internacional. E aquele edifício… é perfeito.
— Sim, já lá fui depois das obras — e vale mesmo a pena. O edifício continua incrível, aquela antiga sede do Banco Nacional Ultramarino, com os balcões em mármore logo à entrada… e a cave, com o cofre-forte transformado em sala de exposições, está especialmente bem conseguida. Acho que até está lá agora uma exposição do António Variações.
— Estou curiosa, mas antes de irmos lá vamos saborear estes pratos italianos bem como este sol de primavera. Estou a gostar muito deste espaço e vou voltar com as minhas amigas.
Terminado o almoço, seguiram para o MUDE. À saída do museu, Miguel perguntou:
- Então, gostaste?
— Muito! Tinhas razão — a remodelação está fantástica. Gostei especialmente da cave… e do último andar, com aquela varanda panorâmica. Aqueles bancos ondulados, em madeira — e Lisboa ali, inteira. Magnífico.
— Fico mesmo contente. Também gostei muito! E, a propósito, tenho uma notícia para ti: a Gulbenkian tem uma excelente exposição — reúne mais de cem peças vindas de vários museus e casas de moda, incluindo o MUDE e o Museo del Traje de Madrid, num diálogo entre moda e arte.
— Que bela sugestão! Quem diria, um engenheiro tão atento à cultura. — riu-se — Tenho mesmo de lá ir.
— Vês? Um engenheiro também sabe destas coisas! Mas antes de acabar este dia, vamos até à Galeria de São Roque. Quero que conheças dois amigos meus — o Mário Roque e o António Afonso — e vejas outras obras… há lá uma peça do Escada, a propósito do 25 de Abril.
— Um almoço com vista, o MUDE e agora uma galeria… Lisboa não se esgota, mesmo. Vamos?
Continua
Texto escrito a quatro mãos