Home Cardus Edição 162, outubro 2026

CRÓNICA

Malisca

FUI AOS FIGOS, COLHI AMORAS



O tempo parece louco, dizem por aí. Tão depressa está calor como logo a seguir está fresco, com o vento a assobiar alheado dos comentários e das fofoquices.

Saímos manhã cedo rumo ao Alentejo, numa viagem com propósito e, apesar de agosto ainda não ter terminado, as temperaturas não se esganiçavam assim tanto, sentindo-se mesmo uma calmaria luminosa e doce.

Excluídas as autoestradas, o percurso fez-se com o encanto da paisagem a voltear planícies, serras e albufeiras que nos encheram por inteiro. Cabeça, alma e coração colmados, entornavam, aqui e ali, a beleza roubada ao caminho.

A primeira paragem, em Ponte de Sôr, não começou da melhor forma. A tasca apregoada, durante a viagem, como a detentora das melhores bifanas no pão do país - nada comparáveis às do Bigodes, na Benedita, nem às de Vendas Novas - estava fechada. A segunda alternativa também não deu frutos. Acabámos num restaurante de esquina da rua principal, com uma sopa de legumes, um croquete, uma sandes mista e um café.

A visita à loja de artesanato, que ficava muito perto do restaurante, desinquietou as emoções, no bom sentido, e foi preciso fazer um esforço para acalmar a excitação de tanto fascínio e sedução das peças expostas. Também o passeio pela zona ribeirinha do rio Sôr - que se estende cidade adentro e se oferece aos seus sete mil habitantes e aos forasteiros como um espaço de bem-estar onde a harmonia entre o Homem e a Natureza é visível e se faz sentir - culminou num final feliz.

De volta ao carro, lá fomos nós, devagar, para saborear cada quilómetro e não deixar que escapassem ao olhar os cenários esboçados pelos palcos do horizonte, até chegarmos ao destino – As Reveladas, paredes meias com Castelo de Vigo e Marvão, lugares idílicos e de comoção.

A Serra de S. Mamede tem magia e, quem se abeiça a ela sente a paz do seu abraço caloroso. E foi com este sentir que chegámos e estacionámos em frente à casa.  Quatro da tarde, silêncio no ar, cantoria amiúde dos pássaros a sobrevoar as árvores que brilham mais com o amarelo do sol.

O objetivo era abrir as portas e janelas, fechadas há mais de um ano, arejar os quartos e a sala para se desfrutar uns dias. Depois do susto, na procura das chaves que não apareciam, a porta, zangada por tanto tempo sem uso, teimou em não abrir numa luta que ultrapassou a meia hora.  Como que a adivinhar que vínhamos em missão de adeus e de despedida para sempre, toda a casa, triste e silenciosa se revoltou. Protestava não só com o abandono a que fora sujeita, mas também com a perceção de uma evidente rejeição.  As obras iniciadas e interrompidas por razões diversas aumentavam ainda mais o desconforto de tudo e de todos. A eletricidade não funcionou e, por consequência, a bomba - que transporta a água diretamente da Fonte da Ti Esperança, trezentos metros mais abaixo – também não.

Como forma de alento, peguei no cesto para ir ao pomar buscar os figos, doces e sumarentos que a terra todos os anos nos presenteava. Deixei a casa, a correr em direção às árvores e, de repente, parei. Estavam todas tapadas, não se viam. Havia uma transformação em todo o espaço: neste tempo de solidão, as silvas, de unhas aguçadas, tinham ganho força e invadido o vergel.

Não consegui colher os figos, mas trouxe o cabaz abarbado de amoras.