Home Cardus Edição 161, setembro 2026

CRÓNICA

Malisca

Viagens, encontros e afectos



O entusiasmo e euforia daquelas férias, que prometiam uma viagem pela pradaria dos sonhos, esfumaram-se assim que o olhar escorregou nas ruas cheias de gente, buracos, guindastes, blocos de betão, contentores e caixotes, num reboliço de obras que Gotemburgo há muito se vem embrulhando. A beleza, de tudo o que a envolve, escondia-se, inquieta e zangada, no sussurro do vai e vem dos transeuntes, dos carros, camionetas, eléctricos e comboios e na melancolia do vento quente sempre a agoirar calor.

Era o segundo dia de muitas horas sentada num autocarro, depois da saída de Berlim, rumo a Copenhaga, onde estava programado um passeio pelo centro da cidade e que não aconteceu devido a um acidente que provocou o atraso de cinco horas, com chegada quase à uma da manhã.

Tempo para se lembrar da conversa de uma criança de dez anos, que ouviu no programa das manhãs da Rádio Comercial, que nunca mais esqueceu, e que dizia convictamente ter escolhido ser feliz porque não iria nunca deixar que a mente complicasse a singeleza e o belo das coisas: a felicidade é uma escolha, apregoava!

Foi a isso  que se tentou agarrar naquela semana de passeata, apesar de a mente teimar em se prender nas engras e quinas das emoções já sobrecarregadas pelo cansaço da jornada.

Apesar do percurso deste verão, Berlim, Estetino,  Copenhaga e Gotemburgo, não ter sido  novidade,  afinal as famílias portuguesas esparrinham-se pelo mundo afora,  juntando-se,  lá ou cá, volta e meia, a ida à fronteira da Alemanha com a Polónia foi uma agradável surpresa. Estetino, que já pertenceu à Suécia, Prússia e à Alemanha, tendo voltado a ser polaca após a Segunda Guerra Mundial, mostrou-se uma cidade airosa, moderna, zeladora da sua história e do património arquitectónico que orgulhosamente mantém.

Também as muitas ilhas a caminho de Estenungsúndia, cidade sueca da região da Gotalândia, mudaram completamente o cenário, deixando o olhar deliciar-se naquelas paisagens vestidas de pura beleza e encanto.

A chegada ao destino, preenchida com a efusão fervilhante das seis crianças e adolescentes, que esperavam os avós, desprendeu logo os pedaços de alegria que ainda se escondiam dos tropeços da viagem.

A bagunça na sala e nos quartos, com jogos, almofadas e brinquedos espalhados; os almoços em atropelo com os mais novos a quererem participar na confecção dos cozinhados da avó, as idas à praia a pé e de bicicleta, à vez ou todos juntos, as visitas contínuas ao supermercado, porque faltava sempre alguma coisa, preencheram estes dias passados em família.

E depois de duas semanas em que o coração não teve férias, onde a algazarra imperou e acabou por encolher e enfezar o espaço transbordado de tanta gente: primos, tios, pais e avós num total de dez pessoas, o retorno encheu-se de vazio e de angústia antecipando as saudades demoradas que, por certo, não irão dar tréguas até ao próximo encontro.