Home Cardus Edição 160, agosto 2026

CRÓNICA

Malisca

VISITA


Quando nasceu, a irmã mais velha já tinha dezoito anos e, desde logo, passou a assumir o manejo da sua educação, já que a mãe, zangada com o futuro tentava segurar-se dos tropeções do seu fado.

Nunca a tratou por tu e sempre conviveram com a distância imposta pela diferença de idades e pelos hábitos culturais da altura. Professora de Formação Feminina, na Escola Industrial e Comercial Sarmento Rodrigues, em Nova Lisboa – Huambo, com ela aprendeu a ler, a contar, a cozinhar, a bordar, a tratar de uma casa, entre muitas outras coisas.

Lembra-se de aos quinze anos, a irmã a obrigar a fazer um vestido a partir de um molde da Burda, célebre revista de moda muito popular na época.

E também se lembra que a obrigava a participar nas grandes limpezas semanais: esfregar escadas com Pó Vim e/ou lavar paredes com água e lixívia; fazer rissóis de camarão e bolos tarde dentro; depenar e amanhar frangos da capoeira do quintal, afazeres que caíram em desuso mas que lhe deram capacidade para enfrentar travessias da vida com lepidez e leveza.

Valorizar a perseverança e o esforço foram alguns dos mais importantes ensinamentos que recebeu da irmã, sobretudo através do exemplo que esta lhe deu ao longo da vida. Envolvida na debandada que marcou a saída de Luanda após o 25 de Abril, viu-a em Viana do Castelo a recomeçar tudo do zero, construindo com coragem e determinação mais um capítulo da sua história. Sem encontrar oportunidades de trabalho na sua área de formação, a Química, não se deixou limitar pelas circunstâncias e especializou-se em Matemática, demonstrando que a aprendizagem e a superação não têm idade nem limites. Ao longo da sua carreira, já na cidade de Setúbal, até se reformar, preparou centenas de alunos para os exames nacionais do 12.º ano.

As lembranças passam ainda por vê-la sempre com um livro na mão ou a estudar línguas, nomeadamente o Esperanto, uma língua criada para aproximar pessoas e culturas. A curiosidade, o gosto pelo conhecimento e a vontade de compreender e se ligar ao mundo faziam dela uma pessoa especial e inspiradora.

Cada uma seguiu a sua viagem.

O tempo passou num fósforo e há muito não se viam.

Foi visitá-la ao lar, com o coração alvoraçado de alegria e saudades.

Voltou com a alma embrulhada na angústia.

Estava no salão grande, sentada, imbuída nos segredos do silêncio.

Com as palavras aprisionadas, levantou-se para acolher o abraço, esboçou muitos sorrisos, mas não a reconheceu.