A Eva nasceu. Esperada com amor, alegria e muita ansiedade, chegou quinze dias mais cedo e todos se apressaram para a receber. Com as voltas trocadas, lá foi a avó e a mana para Astana, no Cazaquistão. Uma viagem longa, cheia de expectativas, com quatro horas de diferença de fuso horário que significou sair de Lisboa às cinco da tarde e chegar às 8h da manhã do dia seguinte.
Com o cansaço e as emoções num autêntico rebuliço, saíram do avião um pouco azamboadas, parecendo que a Terra não era a mesma e que tinham aterrado no mais longínquo planeta.
Logo, logo se aperceberam de uma realidade incomum, que nada tinha a ver com a do mundo ocidental.
Durante as duas semanas que se seguiram, as surpresas foram-se enumerando, sempre com um sabor a inesperado e a inusitado.
As dificuldades de comunicação fizeram-se sentir desde o primeiro instante. No país não se fala inglês, e tudo, tudo aparece em russo ou cazaque.
Rapidamente constataram que a globalização por aqui ainda não tem guarida, sendo muito poucos os seus vestígios.
Desde que se libertou da antiga União Soviética, o Cazaquistão manteve o mesmo presidente, Nursultan Nazarbayev, quase trinta anos que, embora tivesse a ambição de transformar o país numa potência moderna e influente, não promoveu o turismo.
Almaty deixou de ser a capital em 1997, sendo Astana a cidade eleita para sede governamental, criada do zero, muito à semelhança de Brasília. Numa correria pela modernidade, Astana é hoje um lugar de vanguarda, icónico e pretensioso, em que cada edifício se veste do mais excêntrico design numa competição pela hegemonia de cidade futurista para impressionar o mundo.
Apesar da grande influência cultural russa é a China que se faz sentir, principalmente na área comercial. O plástico impera nas mais diversas formas e todos os espaços se assemelham às tão conhecidas lojas chinesas espalhadas pela Europa.
Com uma mistura fisionómica acentuada, a população tem traços vincados de mongóis, turcos, russos, entre outros povos da Ásia Central e Oriental. Por cultura, não têm sorriso fácil e aparentemente escondem a sua docilidade como norma de respeito.
O longe e a distância neste país tem uma outra dimensão, não só pela própria localização geográfica, mas também pela singularidade de tudo o que se apresenta à sua volta.
É verdade que os desenhos que ilustram os painéis das nossas memórias dependem das sombras que carregam menos ou mais o olhar.
O desta avó estava enclausurado numa teia de sentimentos e será sempre esta a imagem que guardará de Astana.