Nos anos 60/70 faziam-se as compras na mercearia e era num cesto, num saco de papel ou num saco de pano que as trazíamos para casa. O plástico, embora já existisse de diversas formas, era raro e pouco usual. Muito diferente dos dias de hoje, infiltrado nas nossas vidas sem nos conseguirmos livrar dele.
Por essa altura morava para os lados da Cuca, num dos bairros estacionados para lá dos cantos de Luanda. Todos os dias, muito cedo, apanhava o autocarro, que a deixava na entrada da grande cidade, para ir trabalhar. Ainda tinha que andar uma meia hora a pé até ao centro para depois seguir no transporte da empresa, mais uns vinte minutos até ao destino final.
Muito jovem, sempre apressada e inquieta, vivia com o pensamento a fervilhar de ideias a sonhar com o futuro.
Foi num desses dias que, ao descer o Largo das Ingombotas até à Praça da Maianga, onde a esperava a carrinha dos trabalhadores, parou deslumbrada numa montra de artigos para o lar, e de lá só saiu já nos últimos minutos, esbaforida a correr, para não chegar atrasada.
Acabadinhas de desembarcar de um qualquer lugar moderno e longínquo, caixas cheias de cores vivas e contagiantes, umas redondas, outras quadradas ou rectangulares, espalhavam-se pela montra toda, empilhadas em torre, por tom ou tamanho, ou dispostas em círculo e em linha, como se falassem umas com as outras e quisessem seduzir os transeuntes. Eram as primeiras caixas de plástico a aparecer, tipo Tupperware, a saltarem para o mercado.
Ainda se lembra da invasão de euforia que sentiu quando, em espanto, o seu olhar se prendeu naquele mar colorido. E ali ficou a imaginá-las na cozinha, na despensa e no frigorífico, que não tinha, embrenhada no anseio de uma casa sua.
Continuou a andar com a certeza de voltar, não tão rápido como quereria mas logo que amealhasse os escudos necessários para as comprar.
Assim foi, passado algum tempo, aprumou-se ao balcão da loja com grandes expectativas, mas com magras provisões. As novidades são sempre tentadoras, aumentam a sua procura e por consequência o preço, eram muito caras. E, como os salários, lá ou cá, desde sempre, nunca acautelaram desvarios nem lampejos, limitando-se a prover apenas necessidades básicas, como era o caso, ficou gorada a intenção de comprar um exemplar de cada.
Apesar da frustração, impunha-se agora a escolha: vermelho, azul, amarelo, laranja ou verde?
Decisão difícil para quem sonhava com todas. Trouxe uma, a verde, e nunca conseguiu comprar as outras.
Ainda hoje a guarda, velhinha e desgastada. Considera-a uma relíquia impregnada de memórias desinquietantes que lhe acordam um rol de emoções, muitas de saudade mas outras dos sonhos que alimentaram a sua vida.