Home Cardus Edição 155, março 2026

CRÓNICA

Malisca

SEM TÍTULO



Sinto que sentes indecifráveis agastamentos quando nos cruzamos,

sentes que sinto debilidades inquietantes a toldar-me o caminho.

Entre o absurdo e o explicável tudo se mistura

como a chuva e o calor,

a praia e a areia,

ou o deserto, o vento e as palavras.

São cores sem cor, tonalidades desinteressadas de ser

rosto sisudo de olhar parado

tez tisnada do tempo

do tempo sem tempo 

do tempo que fora

do tempo de outrora

ao ombro a mala abarrotada de passado

o vestido, esse, rodado

bamboleia sem pressa, levemente insuflado,

para cima, para baixo e para os lados...

nos pés o futuro, sem paragens que o presente é ginglarão

num vai e vem

sem horas

para lá e para cá

e para lado nenhum

alma refugiada num qualquer lugar

a entrelaçar a tristeza e os muitos pesares

numa fórmula matemática de resultado Zero

é o nada de tudo

é o tudo de nada