Home Cardus Edição 154, fevereiro 2026

CRÓNICA

Malisca

ADRIANA



Adriana tem pouco mais de quarenta anos, nasceu em Ahuano, uma aldeia longe de Quito, a cidade mãe do Equador.

Transporta doçura e sorrisos que escorregam pelo olhar. Não faz perguntas mas responde com leveza e sem queixume a todas as que lhe fazem.

Nunca teve vida fácil. Conseguiu fugir do marido e da dureza do dia-a-dia com o custo de se ver separada dos dois filhos e da filha.

Consola-a o facto de já serem adultos e por isso não foi tão difícil partir. Está em Bruxelas já lá vão dois anos, a autorização de residência vai conseguir, tem a certeza.

Por ora vai limpando apartamentos de famílias sem tempo, com esperança de um contrato de trabalho, agradecida por esta oportunidade única na sua vida.

Exímia em todas as tarefas da lide doméstica, sonha com o lar que não tem enquanto trata as casas como suas. Abraça-as com tanto afeto que, em poucas horas, ficam a resplandecer de brilho e conforto.

Sente alegria ao aconchegar a si estes espaços, espaços que respiram modernidades e tão diferentes do que tinha no seu país.

Aqui já não sofre os maltratos do marido, o medo deste homem desfez-se na distância e o silêncio já não se veste de lágrimas. Quase não acredita na alegria de estar livre. Aprendeu a ser submissa, na sua terra as mulheres de todas as gerações guardam obediência aos maridos, no entanto, as surras que levava nunca as entendeu e sempre achou que não as merecia.

Adriana podia ser uma mulher amarga, revoltada e zangada, mas Adriana está tranquila, apaziguada, gosta da sua nova vida e sente-se grata. O seu foco, agora, é aprender francês, quer adquirir visto permanente, no país que escolheu, depois de anos a esconder migalhas arrecadadas com as bonecas de trapos que vendia aos turistas. Os filhos ajudaram, moídos pelo desgosto de ver o pai a mascar Chala horas a fio arreliado com a vida e a descarregar frustrações no corpo da mãe.

Do sol e do calor húmido intenso só se lembra quando os dias são agrestes sem promessas de tréguas. As saudades, só as da família que lá deixou. Da infância recorda o encanto dos sonhos que a envolviam de esperança, esperança no amanhã. E, para que nunca deixasse de acreditar, manteve-os todos guardados em clausura, no coração.