Não tenho um critério para escolher um livro. Quem tem? Que tipo de critérios? Tem que ser bom? O que é ser um bom livro? Cabem imensas respostas.
Eu não escolho um livro. Eu compro e depois acontece eu ficar no livro. Compro porque alguém disse algo, alguém escreveu algo, eu li ou ouvi algo do autor… Esse algo é que é o determinante. E é sempre o mesmo: a sensação de que o livro me vai dizer alguma coisa. E vai dizer de uma forma que eu vou entender, aprender, gostar e ficar com uma linguagem nova.
Um livro é sempre uma linguagem: com imagens, metáforas e outras formas de dizer o mundo, que muitas vezes nunca ouvimos; palavras que nunca relacionámos ou havíamos sequer pensado que se poderiam relacionar. E o melhor: depois vamos para o mundo fora do livro propagandear o que aprendemos.
Ouvi falar deste livro e fiquei com uma vontade imediata de o ler. Porque descrever este livro a alguém consiste em gerar uma dúvida no outro. Dúvida essa que não pode ficar sem resposta.
Javier Cercas acompanha a viagem do Papa à Mongólia, em 2023, para tentar compreender a fé católica, mas, mais concretamente, o que acontece depois da morte. Essa vontade de saber sobre a morte não pertence ao escritor, mas surge por interposição da mãe, que tem Alzheimer e uma grande dúvida: vou ver o homem que amo quando morrer?
Não que vá descobrir o amor depois da sua morte, mas a dúvida é se verá o seu marido, que morreu, depois da morte.
O autor parte, então, com uma missão: uma conversa pessoal com o Papa para lhe fazer essa pergunta.
O ponto mais interessante, para mim, é precisamente Cercas partir de uma posição de dúvida. Ele não escreve como um crente que quer provar alguma coisa, nem como alguém que simplesmente quer atacar a religião. A pergunta é muito mais pessoal: e se estivermos errados sobre aquilo que acontece depois da morte?
Mas, como quase tudo o que é importante, não interessa tanto o fim, mas o caminho. E o caminho até à conversa mais pessoal com o Papa é um caminho cheio de aprendizagem, porque o autor vai tendo conversas, em registo de entrevista, com várias personalidades do Vaticano, entre elas o cardeal Tolentino de Mendonça. Javier Cercas passa por jornalistas, cardeais, sacerdotes, missionários, monjas, leigos, budistas e mongóis.
Destaco o cardeal Tolentino. Quando Javier Cercas lhe explica a verdadeira razão pela qual aceitou fazer esta viagem e escrever o livro, o cardeal Tolentino diz-lhe que a curiosidade do Papa tornará a conversa possível. Esta conversa é toda ela uma reflexão sobre a natureza humana e a natureza papal.
“Diz-se que o Papa Francisco é um revolucionário com um programa reformista. E é verdade. Mas, ao mesmo tempo, ele é apenas um Papa, mais um Papa, um Papa de uma longa sucessão de Papas, não um Papa que provoca ruturas. (…) O importante é a Igreja, não ele.”
O livro revela uma certa tensão pelo contraste entre o escritor agnóstico e todo o ambiente religioso/crente onde ele se vai movendo, com uma seriedade curiosa, crítica e muito empática por parte do autor com todos os crentes intervenientes.
A conversa acontece e a resposta do Papa é muito clara. Mensagem transmitida.
Mas o que fica é esta ideia de que a eternidade está aqui. Vivemos na eternidade se assim quisermos. Se quisermos, porque se trata de uma escolha, pois não conseguimos demonstrá-lo racionalmente.
Sabemos que vamos morrer.
De que modo escolhemos caminhar até lá?