Sinopse
No 25º Artº foi dito que em 1966 estavam já presentes nos três teatros operacionais todos os constrangimentos que haveriam de marcar as guerras coloniais até ao seu epílogo: pouca mobilidade das tropas, instrução deficiente, armamento limitado, baixa motivação para o combate com reflexo no desempenho operacional, dificuldades crescentes no recrutamento e consequentes dificuldades de preenchimento da quadrícula, dada a vastidão dos dois maiores teatros, Angola e Moçambique. No ano em que em Angola se continua a preencher a quadrícula no Leste, com vista à criação da Zona Militar Leste, intensifica-se o recrutamento e treino de tropas locais, que possuíam entre outras, a vantagem do conhecimento do terreno em que se moviam.
O ano que vamos tratar caracterizou-se pela intensificação da guerrilha no Norte e no Leste de Angola, mas também em Moçambique e na Guiné. Foi em 1967 que a UNITA iniciou a sua actividade militar regular contra o EP, mas também contra o MPLA.
No plano interno, destaca-se no início do ano o convite que o Cardeal Cerejeira envia a Paulo VI para visitar Fátima. Este haveria de aceitar, mas nos termos que o próprio definiu, afrontando Salazar.
As Guerras Coloniais levavam já 6 anos de duração quando foi resolvido um dos problemas que mais graves repercussões teve no moral das tropas metropolitanas: o repatriamento dos restos mortais dos soldados tombados nos teatros de guerra ultramarinos.
Vamos abordar também os preparativos para a construção da barragem de Cabora Bassa, o início da extração (não de exportação) de petróleo em Cabinda, a melhoria do armamento ligeiro do Exército, as já habituais resoluções condenatórias do Conselho de Segurança da ONU, as grandes cheias de Setembro em Lisboa e como o regime lidou com o problema.
Os nossos mais fiéis aliados, Brasil e Reino Unido, não se coibiram neste ano de sugerir diferentes caminhos para a política colonial salazarista.
No plano internacional o destaque vai para o início da terrível Guerra do Biafra na Nigéria, em Maio, com Portugal a apoiar o movimento separatista e para a Guerra dos Seis Dias em Junho.
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
1967-O ano da consolidação da opção militar
Neste ano de 1967 assistiu-se a um reforço global dos contingentes militares presentes nos três teatros operacionais superior a 6%, a maior parte dos quais destinados a Moçambique, cujo contingente foi reforçado com 4133 novos soldados, contra 1604 em Angola e 849 na Guiné.
Ataque à AB4 em Henrique de Carvalho (Saurimo) em 13 de Janeiro
A AB4 (aeródromo base nº 4), situada na então Henrique de Carvalho, era principal infraestrutura da FAP no Leste de Angola. Em 13 de Janeiro foi flagelada, numa ação atribuída ao MPLA, então em expansão para Leste. Sem grandes danos materiais, esta ação teve, no entanto, alguma repercussão a nível psicológico nas nossas tropas e um natural aproveitamento a nível propagandístico por parte do MPLA.
Mortífera emboscada da FNLA no Norte de Angola em 18 de Janeiro
O ano começa com alguma actividade relevante no Norte por parte da FNLA. Em 18 de Janeiro emboscou uma coluna militar na estrada Bembe/Lucunga provocando sete mortos, oito feridos e um desaparecido, provavelmente capturado pelo inimigo. Capturaram ainda duas armas e destruíram duas viaturas. Um número tão elevado de baixas ficou a dever-se a dois factores, grupo inimigo de várias dezenas de combatentes e ao bom treinamento de que deram provas na organização da emboscada.
Reunião da direção da UNITA no interior de Angola em 21 de Janeiro
Com a presença das principais figuras dirigentes da UNITA além do próprio Savimbi, Miguel N´Zau Puna (Muxima), Smart Chata (Massumba), Samuel Chiwale (Calundungo), David Chingunji e outros, esta reunião teve lugar na zona da Candala, no Leste de Angola com os seguintes objectivos:
-Consolidar a liderança no interior do território, em contraste com os outros dois movimentos
-Estruturar a guerrilha e a expansão militar em direção ao Bié e ao centro do País.
-Definir a estratégia de mobilização popular
Deste 3 objectivos o que teve maior sucesso foi o terceiro, mobilização popular, reconhecido pelas autoridades portuguesas no Perintrep (Periodic Intelligence Report) 542 de 21 de Janeiro de 1967.
Convite em 13 de Fevereiro do Cardeal Cerejeira ao Papa Paulo VI para visitar Fátima
Este tema merece um desenvolvimento particular, focando antecedentes.
A relação entre Paulo VI e Salazar era fria desde 1964 quando, três anos após a invasão e anexação do Estado Português da Índia pela União Indiana, Paulo VI visitou Bombaim, atitude que Salazar considerou “anti-portuguesa” por “legitimar” a anexação.
Recordemos também que estava latente o conflito provocado pelo exílio a que Salazar forçara D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto (motivo: a célebre carta de 1958 de D. António a Salazar reclamando a democratização do regime e o respeito pelos direitos humanos) e o convite de Cerejeira tinha por objectivo principal a melhoria das relações institucionais. Por outro lado, Paulo VI firmemente alinhado com o espírito renovador do Concílio Vaticano II, tinha uma visão fortemente anti-colonialista e de apoio à autodeterminação dos povos. Foi aliás com esse espírito que em Julho de 1970 recebeu em audiência no Vaticano Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, já no consulado marcelista. Mas voltemos então à visita. Paulo VI aceitou o convite de Cerejeira, mas nos seus próprios termos, agenda e ação. Não aterrou em Lisboa, desceu em Monte Real, obrigando Salazar a deslocar-se a essa base aérea para o receber. Fixou uma duração de 13h entre a chegada e a partida, o que inviabilizava banquetes, desfiles ou cerimónias de Estado. Recusou deslocar-se a Lisboa, sede do poder político e fez questão de dar à visita um carácter estritamente pastoral, declarando-a “peregrinação inteiramente particular para rezar pela paz no mundo”. Numa breve audiência à porta fechada, Paulo VI tratou o ditador com uma cortesia tão fria e desapegada (segundo Franco Nogueira) que rondou a indiferença, evidenciando a distância ideológica entre ambos.
Na homilia, perante quase 1 milhão de pessoas e com a liderança do Estado Novo na primeira fila, Paulo VI centrou a sua intervenção na paz mundial e num apelo ao fim de todos os conflitos armados. A interpretação das suas palavras era linear, mas a propaganda salazarista apresentou a impressionante moldura humana como uma manifestação de apoio e unidade em torno do regime. A presença do Papa em solo nacional foi vendida como uma prova de que Portugal não estava só e isolado diplomaticamente. A explícita condenação de todas as guerras incluindo as coloniais não foi, evidentemente, referida pela bem oleada propaganda do regime.
A visita de Paulo VI a Fátima não só não melhorou as relações entre a Santa Sé e o Estado Novo, como de certa forma as agravou. As duas causas maiores do atrito entre os dois Estados, as guerras coloniais e a situação do Bispo do Porto, que o Vaticano considerava continuar em funções, não o substituindo, nunca foram resolvidas por Salazar.
António só voltaria a Portugal em 1969, após 10 anos de exílio, no início da chamada “primavera marcelista”. As guerras coloniais, essas estenderam-se como sabemos até 1974, muito para além da morte de Salazar.
Rádio Tanzânia cede tempo de antena em Português à FRELIMO
A Radio Tanzânia Dar es Salaam, RTD, controlada pelo governo de Julius Nyerere cede em Março ao Departamento de Informação e Propaganda da FRELIMO, tempo de antena de meia hora diária, para programas dirigidos às elites moçambicanas, aos militares e militantes do movimento e aos soldados do E.P. O início oficial das emissões regulares em Português foi o dia 12 de Março, embora antes disso a RTD já difundisse comunicados e gravações áudio do movimento.
Os programas (Voz da FRELIMO) eram também feitos em várias línguas regionais moçambicanas, nomeadamente nas duas mais faladas, macua e maconde. A RTD concedia também tempo de antena à SWAPO e ao ANC.
Estado assume despesas de transladação dos mortos em África-Despacho do Ministro do Exército de 2 de Março
Este despacho do ME veio reparar uma injustiça histórica, o abandono dos militares metropolitanos caídos no Ultramar em combate, doença ou acidente.
Até esta data, qualquer soldado de qualquer patente mobilizado para qualquer das guerras ultramarinas, sabia que em caso de falecimento os seus familiares não fariam o luto da sua morte. Isto gerava um sentimento de abandono, ingratidão e descartabilidade dificilmente suportável e foi, entre outros, motivo acrescido de deserções e fuga ao serviço militar. O reflexo mais óbvio desta situação era a determinação do militar em preservar a todo o custo a sua integridade física e evitar o que era chamado “o exílio perpétuo pós-morte”. Só as famílias abastadas recuperavam os corpos dos seus entes queridos, o que gerava um sentimento revoltante de divisão de classes no seio do Exército.
O Movimento Nacional Feminino pressionou bastante as estruturas militares no sentido de resolver este problema que em seis anos de guerra se tinha agudizado. O caso concreto do soldado Francisco da Luz Carloto, falecido em Janeiro de 1967, cuja mãe endereçou ao Ministro da Defesa uma pungente e desesperada carta apelando ao seu auxílio na transladação do corpo do filho, finalmente desbloqueou a solução. Com este despacho (estendido à Marinha em 1969), o Estado finalmente assumia as despesas e a burocracia da entrega dos corpos às famílias. Mas em seis anos de guerra, milhares de soldados que nunca regressaram às suas terras ou famílias, ficaram para sempre esquecidos em cemitérios hoje tragados pelos matos africanos, atestando “in aeternum” a indignidade da resolução tardia dum problema que nunca deveria ter existido. Malhas que o Império teceu…de que a ditadura salazarista continua a ser a grande responsável.
Ações da UNITA contra o CFB em 15 de Março
No início deste ano a UNITA não tendo ainda capacidade militar para realizar ações contra o EP, escolhia os alvos mais fáceis. Um deles era a linha do Caminho de Ferro de Benguela que unia VilaTeixeira de Sousa ao porto do Lobito. Em 15 de Março cortou a linha a cerca de 30 kms dessa vila, provocando o descarrilamento do comboio e quatro feridos entre os passageiros. Ainda este mês voltaria a realizar ação semelhante a 50 kms de Vila Luso. Estas ações que prejudicavam gravemente as exportações de cobre congolês e zambiano, enfureceram o governo da Zâmbia, que em Julho acabaria por deter e expulsar Savimbi, proibindo todas as suas actividades no País. Sem uma rectaguarda segura, Savimbi viria a optar por se infiltrar profundamente no território angolano, particularmente nas províncias de Bié e Moxico, adoptando uma estratégia de auto-suficiência e recrutamento local.
Em 5 de Março, Savimbi tinha concedido uma entrevista a dois grandes jornais zambianos, onde traçou as linhas da sua actuação futura, a expansão para Sul e para o Centro, onde nunca conseguiria chegar. Com alguma falta de rigor definiu também as suas áreas de influência, distritos de Malange, Lunda, Moxico, Bié e Cuando Cubango, já que nesse ano a sua influência nesses distritos era incipiente, com excepção do Moxico.
Ainda este mês, Savimbi veria seu pai, Loth Malheiro Savimbi ser preso pela PIDE sob a acusação de estar envolvido em actividades subversivas. Director da Missão Protestante do Chilesso, a PIDE vigiava-o por ser pai de quem era, mas também porque as missões protestantes eram centros de actividade independentista. Outro caso semelhante ocorreria no dia 24 deste mês com a prisão do director da Missão Monte Esperança no Bié, sob a acusação de ter nela permitido uma reunião subversiva com a presença de Savimbi
Editorial do Jornal do Brasil de 31 de Março
Em 1967, em plena ditadura militar, o Brasil elegeu dois presidentes. Em 15 de Março cessou funções Humberto Castelo Branco e a partir dessa data, eleito por via indirecta, iniciou funções Artur da Costa e Silva. Não obstante o apoio diplomático brasileiro à política colonial portuguesa, o Jornal do Brasil publica em 31 de Janeiro um editorial em que pede a Portugal que considere a autodeterminação das suas colónias como a evolução natural dum processo histórico. Traduzindo evidentemente a posição oficiosa do governo de Costa e Silva, o editorial demarca-se do “anti-colonialismo radical” da ONU e defende essa solução como o corolário lógico do sucesso da missão colonizadora portuguesa, com as colónias a atingirem a sua maioridade política, moldadas pela cultura e língua de Portugal. Usando a lógica do realismo e pragmatismo, o jornal alertava para o desgaste material, militar e político que as guerras do Ultramar impunham a Portugal. Não obstante toda a argumentação amistosa e fraternal, o editorial provocou uma rejeição categórica do seu espírito e alguma irritação diplomática, que Franco Nogueira transmitiu ao Itamaraty.
Apoio alemão aos militares portugueses feridos-Abril
Como contrapartida à utilização da base de Beja pelos alemães, em Abril deste ano iniciou-se uma frutuosa cooperação com o Hospital Militar de Hamburgo, na área da recuperação de traumas causados pelas minas anti-pessoal. A tecnologia das próteses que os alemães já possuíam, fruto da experiência da II Guerra Mundial, foi uma ajuda preciosa na recuperação de centenas de militares portugueses ao longo dos anos e durou para além do 25 de Abril.
Intensificação da actividade militar da FNLA no Norte de Angola em 16 de Abril
Com o MPLA a expandir-se para Leste, a FNLA sentiu necessidade de se afirmar militarmente superior ao seu rival, por razões políticas e de representatividade da luta armada. Em 16 de Abril realizou uma emboscada a uma coluna militar na estrada Cuimba/Buela, provocando 7 mortos e 20 feridos. A 17 de Abril, o mesmo grupo de cem guerrilheiros atacou uma viatura civil na área de Lucunga, provocando 17 mortos, 1 ferido e cinco desaparecidos. No dia seguinte voltou a emboscar uma coluna militar que regressava de uma operação, conseguindo imobilizar as tropas que vieram em auxilio da coluna emboscada. A 22 nova emboscada na estrada Bessa Monteiro/Quimaria a uma outra coluna, provocando 5 mortos, 5 feridos e 4 desaparecidos.
Um conjunto de ações da guerrilha tão próximas e tão penalizadoras era já raro e causou alarme nos comandos militares, que reagiram através de ações militares de contraguerrilha com o uso intensivo de tropas comando na busca e perseguição aos grupos de combate do ELNA.
Nomeação de D. Manuel Vieira Pinto para Bispo de Nampula em 21 de Abril
António Vieira Pinto nasceu em Dezembro de 1923 no concelho de Amarante e foi ordenado sacerdote em Agosto de 1949 na Sé do Porto. Trabalhou de perto com D. António Ferreira Gomes como assistente da Ação Católica. Dele herdou o inconformismo e a militância contra as injustiças e pelos direitos humanos que haveriam de o acompanhar pela vida fora. Foi um dos grandes arautos do espírito renovador do Concílio Vaticano II e impulsionador do Movimento Por Um Mundo Melhor. Começou aqui o incómodo do regime, mas também e sobretudo com as suas palestras e conferências que mobilizavam multidões. Paulo VI nomeou-o Bispo de Nampula em 21 de Abril e a sua sagração (ou Ordenação Episcopal) ocorreu em 29 de Junho, pela mão do Núncio Apostólico em Portugal, Cardeal Maximillien de Furstenberg
Ao desembarcar em Moçambique em Setembro, D. Manuel teve um gesto que definiu o tom do seu pontificado e da sua ação, antes e depois da independência. Dirigiu-se à multidão negra que o esperava, pegou numa criança africana ao colo e, num gesto profundamente simbólico, ergueu-a em direção ao sol.
A sua ação pautou-se por um combate sem tréguas ao colonialismo, (particularmente violento em Moçambique) e por um alinhamento sem desvios da doutrina social da Igreja, definida no Concílio Vaticano II. Em 1974, pouco antes do 25 de Abril publicou o documento “Hora de Viragem”, no qual defendia abertamente o direito do povo moçambicano à autodeterminação e independência. O regime respondeu com inaudita violência e por instigação da PIDE a sua residência episcopal foi apedrejada. D. Manuel foi detido e expulso de Moçambique. Após o 25 de Abril regressou à sua diocese e não hesitou em condenar as violações dos direitos humanos de Samora Machel, exigindo o fim dos campos de reeducação, das prisões arbitrárias e a garantia de liberdade religiosa. Durante a violenta guerra civil foi sempre uma voz activa nos apelos à paz e mediador empenhado nas negociações para o fim das hostilidades.
Foi ainda o principal impulsionador da fundação da Universidade Católica de Moçambique. Em 1992, coincidindo com os 25 anos da sua sagração e com a assinatura dos acordos de paz desse ano em Roma entre os beligerantes moçambicanos, Mário Soares condecora-o com a Ordem da Liberdade. Em 1998 resignou e faleceu no Porto em 2020 com 96 anos.
Continua
António Carapito