Sinopse
Há no mercado livreiro português literatura variada sobre o tema da Canção de Intervenção, de Protesto ou Resistência. “Canções de Liberdade”, “Silêncio Aflito” e “A Revolução antes da Revolução” são alguns desses títulos, o primeiro de âmbito alargado a outras nações.
No entanto, quase todos os autores que se debruçaram sobre a temática das guerras coloniais, na perspectiva histórica, negligenciaram ou no mínimo omitiram o importantíssimo papel da Canção de Intervenção no despertar das consciências para a problemática da ditadura, da repressão e das guerras coloniais e o seu contributo para o derrube do regime salazarista. Não tendo minimamente a pretensão de colmatar essa lacuna, até porque o assunto é tão vasto que daria, com certeza, matéria para um volumoso livro, justifica-se aqui uma referência, por breve e imperfeita que seja. Vamos referir as causas e condições que Salazar criou, com o seu projecto totalitário, para a resistência intelectual e com ela o surgimento da canção de protesto como embrião da Canção de Intervenção. De seguida faremos uma súmula dos principais nomes que até ao 25 de Abril cantaram essa resistência e a luta pela liberdade (parte II)
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
Não há machado que corte
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte
(Carlos de Oliveira)
Preâmbulo
Reserva da Quiçama, Destacamento Prisional da Casa de Reclusão da Região Militar de Angola em Cabo Ledo, Novembro de 1973, cerca das 21 horas.
A 53 anos de distância temporal, não recordo já o que fazia o furriel Meireles no Destacamento Prisional de Cabo Ledo, naquele dia e hora. Não era um detento, se fosse estaria explicado. Depois de jantarmos no refeitório, afastado das casernas duas centenas de metros, ficamos na conversa pela noite dentro. O grupo de 4 ou 5 pessoas puxou umas cadeiras para o relento, alguém acendeu uma fogueira e o fur. Meireles pediu licença para se ausentar uns minutos. Voltou com uma viola, sentou-se e começou a cantar. Com uma bela voz, bem melhor que a arte de dedilhar as cordas, desfiou durante um tempo esquecido, um rol de canções de Zeca Afonso e Adriano, quase todas desconhecidas … a minha descoberta da canção de intervenção, uma epifania …
Breve história da génese da CI
Salazar tomou posse como Presidente do Conselho de Ministros em 5 de Julho de 1932. A partir desta data, institucionalizou sucessivamente todos os instrumentos que consolidaram a ditadura e o Estado Novo, embora o seu projecto absolutista seja bastante anterior:
-De facto, em 22 de Junho de 1926, Gomes da Costa, menos de um mês após o golpe de 28 de Maio, emitiu uma ordem executiva instituindo os Serviços de Censura, com aplicação prática dois dias depois, 24 de Junho, data a partir da qual e durante décadas, os jornais portugueses passaram a exibir na capa a frase “Este número foi visado pela Comissão de Censura”. Salazar usou-a e transformou-a numa instituição permanente do Estado com a Constituição de 1933.
-Em 30 de Junho de 1930, Salazar anuncia a criação do partido único, União Nacional, cujos estatutos foram aprovados em 20 de Agosto de 1932, pelo Dec. Lei 21608.
Como se disse atrás, a partir da sua tomada de posse, Salazar erigiu meticulosamente todo o edifício legislativo e constitucional do Estado Novo, que subsistiria até à sua morte em 1970 e para além dela com Caetano, até ao 25 de Abril de 1974:
-Aprovação dos Estatutos da União Nacional em 20 de Agosto de 1932
-Entrada em vigor da Constituição de 1933 e proibição formal dos partidos em 11 de Abril de 1933
-Reformulação e extensão oficial da Censura à Imprensa, Rádio, Cinema e Espectáculos em 11 de Abril de 1933 (Constituição de 1933)
-Criação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 29 de Agosto de 1933
-Publicação do Estatuto do Trabalho Nacional, que proibiu o sindicalismo livre e o direito à greve em 23 de Setembro de 1933
-Criação do Secretariado da Propaganda Nacional SPN, dirigido pelo escritor e jornalista António Ferro até 1949, mais tarde Secretariado Nacional da Informação, em 25 de Setembro de 1933
-Criação da Mocidade Portuguesa em 19 de Maio de 1936
-Criação da Legião Portuguesa em 30 de Setembro de 1936
-Abertura oficial e chegada dos primeiros presos políticos ao Campo de Trabalho do Tarrafal em 29 de Outubro de 1936
Como se vê por esta cronologia, os anos de 1933 com a nova Constituição e o de 1936, coincidindo com o início da Guerra Civil de Espanha, foram os dois grandes momentos de produção legislativa de Salazar. Estavam criadas as condições para a emergência da resistência política e intelectual à ditadura, com a sua intrínseca intolerância ao livre pensamento e com ela a canção de intervenção, que ganharia novo fôlego e tema com o advento das guerras coloniais, iniciadas em 15 de Março de 1961.
A resistência intelectual à ditadura salazarista, na qual a canção de intervenção se enquadra, teve início nas décadas de 40 e 50 do Séc. XX, entre outras, sob a forma de canções de protesto e resistência
Precursor, pioneiro da música de resistência, Fernando Lopes-Graça compôs as Canções Heróicas em Setembro de 1945, estendendo este projecto ao longo de várias décadas. Reunido com os poetas João José Cochofel, Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, Lopes-Graça desenhou um cancioneiro político inicialmente baptizado de Marchas, Danças e Canções, compostas para voz e piano. Dentre as Marchas, destaca-se “Acordai”:
Acordai,/Homens que dormis/A embalar a dor/dos silêncios vis!/Vinde no clamor/Das almas viris/Arrancar a flor/Que dorme na raíz!
Acordai,/Raios e tufões/Que dormis no ar/E nas multidões!/Vinde incendiar/de astros e canções/As pedras e o mar,/O mundo e os corações
O primeiro caderno de partituras foi impresso e publicado em 1946, sendo de imediato apreendido pela Comissão de Censura do regime salazarista. Ao longo da sua vida, o compositor continuou a criar e expandir esta coleção de resistência. No total publicou, em edição própria, oito cadernos de canções, seis das quais antes do 25 de Abril e duas após. O último volume foi publicado em 1985. Peças fundamentais da resistência anti-fascista como a já citada Acordai ou Jornada, com poemas de José Gomes Ferreira, nasceram precisamente neste núcleo inicial de composições.
A canção de intervenção começa a desenhar-se como tal no início da década de 60, como evolução da Canção de Coimbra, quando estudantes começaram a exprimir nas suas baladas, a sua insatisfação e protesto pela falta das liberdades fundamentais e pela repressão salazarista.
O início das guerras coloniais em 1961, acrescentou mais um mote aos temas da canção de protesto. Ao combate à ditadura salazarista, junta-se agora a luta contra a guerra, passada a comoção da brutalidade do 15 de Março de 1961. É nesta altura que se faz a transição das canções focadas na opressão interna para o drama da mobilização, do embarque, da despedida, dos eternamente ausentes, da deserção e do exílio.
A crise académica de 1962, ajudou a consolidar um género que já tinha um percurso de mais de uma década.
Cantores, cantautores e canções
Como se disse atrás, a canção de intervenção em Portugal teve dois motes distintos, do ponto de vista cronológico: antes de 1961, a luta contra a ditadura. Depois de 1961, somou-se à primeira, a luta contra as guerras coloniais iniciadas em 1961, 1963 e 1964, respectivamente em Angola, Guiné e Moçambique
Antes de 1961 a luta intelectual contra a ditadura (na vertente que estamos a tratar…) centrava-se principalmente no meio académico de Coimbra (mas também em Lisboa), a partir de uma certa rutura com o fado tradicional. Nesse processo são figuras centrais Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, o primeiro estudante da Faculdade de Letras e o segundo da Faculdade de Direito.
Zeca Afonso Nasceu em Agosto de 1929 em Aveiro, passou parte da infância em Angola, Moçambique e Timor, devido ao trabalho do pai que era juiz. Instala-se em Coimbra na década de 40 e matricula-se em 1949 no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, terminando-o em 1963. Pelo meio ficou uma década de intensa boémia com o Orfeão e a Tuna Académica, durante a qual rompeu com o tradicional Fado de Coimbra, substituindo-o pela Balada, transformando a canção estudantil numa arma de protesto político. Em 1960 compôs a “Balada de Outono”, considerada o marco zero da sua transição estética. Em 1962 compõe “Os Vampiros” que grava no ano seguinte. Por consenso histórico é considerada a primeira grande canção de intervenção política directa contra o regime salazarista. Foi um dos hinos estudantis na crise académica de 1962…
-No céu cinzento sob o astro mudo/batendo as asas pela noite calada/Vêm em bandos com pés de veludo/Chupar o sangue fresco da manada
-Se alguém se engana com seu ar sisudo/e lhes fraqueia as portas à chegada/eles comem tudo, eles comem tudo/eles comem tudo e não deixam nada
-Refrão
-A toda a parte chegam os vampiros/poisam nos prédios, poisam nas calçadas/trazem no ventre despojos antigos/mas nada os prende às vidas acabadas
-São os mordomos do universo todo/senhores à força, mandadores sem lei/enchem as tulhas, bebem vinho novo/dançam a ronda no pinhal do rei
-Refrão
-No chão do medo tombam os vencidos/ouvem-se os gritos na noite abafada/jazem nos fossos vítimas dum credo/e não se esgota o sangue da manada
-Se alguém se engana com seu ar sisudo/e lhes fraqueia as portas à chegada/eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada
-Refrão
Refrão: Eles comem tudo/eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada
Inserido no EP Baladas de Coimbra de 1963, o tema foi especificamente objecto de um ofício da PIDE dirigido em 17 de Junho de 1965 ao Chefe de Gabinete do Ministro do Interior, atribuindo carácter subversivo à letra e recomendando a sua proibição. Em 16 de Agosto de 1965 o SNI, Secretariado Nacional de Informação, oficia os Serviços de Censura no sentido da proibição e recolha imediata de todos os exemplares do disco no mercado.
Ainda em 1962 compõe “Menino do Bairro Negro”, também gravada em 1963. Introduz na canção de intervenção a denúncia da pobreza extrema, chocando de frente com a propaganda do regime que passava a imagem de um Portugal em paz social, pobre, mas sem fome nem miséria. A letra surge depois de Zeca ter visitado o bairro de lata de Francos, no Porto.
O extenso cancioneiro de Zeca Afonso impede uma menção detalhada, mas importa citar “Cantares de Andarilho” de 1968, onde inicia a parceria com o guitarrista Rui Pato. Neste álbum merecem destaque as faixas “Senhora do Almortão”, “Vejam Bem”
(Vejam bem/que não há só gaivotas em terra/quando um homem se põe a pensar/quem lá vem, dorme à noite ao relento na areia/dorme à noite ao relento no mar),
e “Endechas a Bárbara Escrava”, com poema de Camões.
Outros álbuns, com canções hoje clássicos da música portuguesa, são “Contos Velhos, Rumos Novos” de 1969, “Cantigas de Maio” de 1971, onde se inclui a sua magnum opus, “Grândola Vila Morena”, “Cantar Alentejano” e “Maio, Maduro Maio”, “Eu Vou Ser Como a Toupeira” de 1972, de que faz parte a faixa “A Morte Saiu à Rua” sobre o assassínio pela PIDE do pintor Dias Coelho
(A morte saiu à rua num dia assim/naquele lugar sem nome para qualquer fim/uma gota rubra sobre a calçada cai/e um rio de sangue dum peito aberto sai).
Merecem ainda destaque os álbuns “Venham mais Cinco”, o último gravado antes do 25 de Abril, com as conhecidas canções “Venham mais Cinco” e “Que Amor Não Me Engana”. O seu último álbum, de 1985, já gravemente afectado pela doença que o levaria, foi um comovente manifesto de solidariedade artística. Contou com produção de Júlio Pereira e José Mário Branco e a participação vocal de Luís Represas, Né Ladeiras, Helena Vieira (cantora lírica), Janita Salomé, Carlos Zíngaro e outros nomes menos conhecidos.
Zeca Afonso morreu aos 57 anos, em Setúbal em Fevereiro de 1987, de esclerose lateral amiotrófica. Morreu jovem, mas fica uma obra musical sem paralelo na música portuguesa de intervenção e luta contra o regime salazarista.
Adriano Correia de Oliveira Nasceu no Porto em Abril de 1942, mas mudou-se para Avintes com poucos meses de vida. Fez o ensino liceal no Porto e com 17 anos matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1959. Instalou-se numa das mais icónicas Repúblicas coimbrãs, (Real República Rás Te Parta) que à época eram autênticos territórios livres, focos de debate ideológico e resistência cultural, onde se lia literatura proibida e se discutia o futuro do País. Dotado de uma voz invulgar (tenor cheio e límpido), tornou-se primeiro solista do Orfeão Académico de Coimbra, integrou o Grupo Universitário de Danças e Cantares, guitarrista no conjunto ligeiro da Tuna Académica e actor no CITAC. Esta omnipresença nas estruturas académicas deu-lhe enorme popularidade entre os estudantes, tornando-o a voz oficial da academia e portanto, a sua mensagem política mais eficaz. Publica em 1960 o EP “Noite de Coimbra” e em 1963 grava o tema “Trova do Vento que Passa” de mensagem puramente política, poema de Manuel Alegre e música de António Portugal:
Pergunto ao vento que passa/notícias do meu país/o vento cala a desgraça/O vento nada me diz
…
Pergunto à gente que passa/porque vai de olhos no chão/Silêncio-é tudo o que tem/quem vive na servidão
…
Mas há sempre uma candeia/dentro da própria desgraça/há sempre alguém que semeia/canções no vento que passa
...
Mesmo na noite mais triste/em tempos de servidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não
Antes de ser incorporado em Mafra e mudar-se para Lisboa, grava o tema de 1967 “Canção com Lágrimas”, inserto no álbum LP “Adriano Correia de Oliveira”, acompanhado por Rui Pato à viola, onde canta a ausência de um amigo morto na guerra colonial:
Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa/e um coração poisado sobre a tua ausência/eu canto um mês com lágrimas e sol, o grave mês/em que os mortos amados batem à porta do poema
Porque tu me disseste, quem me dera em Lisboa/Quem me dera em Maio, depois morreste/Com Lisboa tão longe, ó meu irmão de Maio/Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro
Porque tu me disseste quem me dera em Maio/porque te vi morrer eu canto para ti/Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas/Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve/Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Integrado no seu EP “Rosa de Sangue” grava em 1968, com poema de Manuel Alegre uma das mais conhecidas canções contra a guerra, “Romance de Pedro Soldado”, cantada igualmente por outros conhecidos nomes, tais como Manuel Freire e José Manuel Osório:
Já lá vai Pedro Soldado/num barco da nossa armada/e leva o nome bordado/num saco cheio de nada
Refrão
Branda rola não faz ninho/nas agulhas do pinheiro/não é Pedro marinheiro/ nem no mar é seu caminho
Refrão
Nem anda a branca gaivota/pescando peixes em terra/nem é de Pedro essa rota/dos barcos que vão à guerra
Refrão
…
Onde não anda ceifando/já o campo se faz verde/em cada hora que perde/cada hora que demora/Pedro no mar navegando
Refrão
…
Soldado o número tal/só a morte é que foi dele/jaz morto ponto final/o nome morreu com ele/deixou um saco bordado/e era Pedro Soldado/triste foi Pedro Soldado/triste foi Pedro Soldado
Refrão: Triste vai Pedro Soldado
Em 1969 publica uma das suas melhores obras, com poemas de Manuel Alegre, o LP “O Canto e as Armas”, considerado um dos pontos altos da música de intervenção em Portugal.
Em 1970 grava uma das suas canções mais emblemáticas Cantar de Emigração. Embora com letra da escritora galega Rosalía de Castro, traduzia na perfeição a realidade portuguesa, agravada pela guerra em três frentes:
Este parte, aquele parte/e todos, todos se vão/Galiza ficas sem homens/que possam cortar teu pão
Tens em troca órfãos e órfãs/tens campos de solidão/tens mães que não têm filhos/filhos que não têm pai
Coração que tens e sofre/longas ausências mortais/viúvas de vivos mortos/que ninguém consolará
Em 1970 ainda grava o LP “Cantaremos” e no ano seguinte publica “Gente de Aqui e de Agora”. Em 1975 grava “Que nunca mais” que inclui o conhecido tema, com um dos melhores poemas cantados por Adriano (Manuel da Fonseca) e arranjos de Fausto Bordalo Dias, “Tejo que Levas as Águas”
(Tejo que levas as águas/correndo de par em par/lava a cidade de mágoas/leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes, espantos/de roubos, fomes, terrores/lava a cidade de quantos/do ódio fingem amores) etc etc…
Em 1980 grava o seu último álbum publicado em vida dedicado à recriação e valorização do cancioneiro tradicional e da música popular, “Cantigas Portuguesas”
Adriano Correia de Oliveira foi a melhor voz e um dos dois cantores, a par com Zeca Afonso, que mais marcou a sua geração e mais dores de cabeça deu às estruturas repressivas do regime do Estado Novo. Morreu jovem, em Outubro de 1982, com 40 anos de idade de hemorragia esofágica. Fica a sua obra, um legado ímpar…
Analisar ou mesmo referir todo o cancioneiro de Zeca Afonso e Adriano, pela sua vastidão, não cabe no espírito deste artigo. Importa referir que estes cantautores dedicaram toda a sua obra à luta contra o salazarismo e contra as guerras coloniais.
Seria injusto e historicamente incorrecto não referir outras vozes que fizeram do canto uma poderosa arma de intervenção cívica e política. Vamos fazer isso no próximo artigo. Desta forma podemos desenvolver mais este tema
Continua
António Carapito