Sinopse
Vamos terminar neste 22º artigo a primeira metade deste ano de 1965, pleno de acontecimentos relevantes.
Quatro anos depois do início das guerras coloniais nas três maiores colónias africanas, estruturas de apoio aos soldados na frente, são agora inestimáveis na manutenção do moral das tropas. Vamos fazer uma breve história do Serviço Postal Militar (SPM), das Enfermeiras Paraquedistas e das Madrinhas de Guerra.
Os acontecimentos mais relevantes nestes três meses que vamos tratar são, a deserção de 3 militares portugueses de Fulacunda na Guiné em 25 de Março, a descoberta em Villanueva del Fresno, junto à fronteira portuguesa dos cadáveres de Humberto Delgado e da sua secretária Arajaryr Campos no dia 25 de Abril, a promulgação pelo Governo Português de um novo Código de Investimento Estrangeiro que teve um papel determinante no desenvolvimento das duas maiores colónias, o assalto da PIDE à sede da Sociedade Portuguesa de Escritores em 21 de Maio, a mudança de atitude e de política da Administração Johnson relativamente à política colonial em 9 de Junho e o anúncio feito pela União Nacional em 23 de Junho, da candidatura de Américo Tomás à Presidência da República. Outros acontecimentos políticos e militares deste período serão também referidos.
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
SPM:
O SPM foi fundado em 23 de Junho de 1961 pelo Gen. Câmara Pina, que requisitou aos CTT o Chefe de Serviço Ernesto Lourenço Dias Tapadas, graduado em Capitão, encarregando-o de organizar os SPM. A ideia e a necessidade já vinham do tempo da IGG, então designado Serviço Postal de Campanha. De Março de 1961 até à data da sua fundação, acumularam-se em Luanda milhares de cartas, tendo sido esta mais uma razão para a fundação de um serviço específico de tratamento do correio militar. A sua formalização deu-se em Janeiro de 1966 pelo Dec. Lei nº 46826
Inicialmente composto por funcionários dos CTT, o volume de correspondência foi crescendo na razão directa do crescimento dos efectivos nas três frentes. Este facto levou à militarização do Serviço, cuja formação era dada no Centro de Instrução do SPM no Forte do Bom Sucesso em Lisboa. O aerograma, de uso gratuito, tornou-se o seu símbolo, permitindo a comunicação escrita entre os militares na frente e as suas famílias, nas colónias ou em Portugal. Até à sua extinção em Julho de 1981, transportou cerca de 21000 tons de correio. Como é evidente teve um papel absolutamente crucial na manutenção do moral das tropas, sendo o dia da chegada do correio às unidades, o mais aguardado da semana.
Enfermeiras Pára-quedistas:
Isabel Rilvas, a primeira mulher pára-quedista portuguesa e entusiasta da Aviação, falecida em Setembro de 2025, propôs em 1961 ao então Secretário de Estado da Aeronáutica, tenente coronel Kaúlza de Arriaga, a formação de um corpo de enfermeiras pára-quedistas, inspirada num corpo militar semelhante francês. A seleção foi muito rigorosa e das 11 candidatas iniciais, apenas foram apuradas seis, que em comum tinham o nome Maria, razão pela qual ficaram conhecidas como as Seis Marias. O 1º curso teve lugar em Maio de 1961 em Tancos, no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas. As seis finalistas foram graduadas no posto de alferes e foram sem dúvida as precursoras da integração das mulheres nas Forças Armadas e da emancipação da mulher portuguesa, num regime que claramente as menorizava e subalternizava
Ao longo da guerra realizaram-se mais 11 cursos totalizando 46 enfermeiras, agora com diferentes patentes, sendo a mais elevada a da major Maria Ivone Quintino Reis, falecida em Maio de 2022. Actuaram nos três teatros de guerra e em cenários extremos, especialmente na Guiné, de que os dramáticos depoimentos das enfermeiras para-quedistas, insertos no livro “Sopros de Vida” de José Lemos do Vale dão representativos exemplos.
As deslocações aos cenários de guerra onde a sua contribuição era essencial para a triagem e evacuação rápida de feridos graves, era quase sempre feita de helicóptero, na altura o Alouette III.
Com o 25 de Abril, esvaziou-se a razão da sua existência e o Corpo de Enfermeiras Pára-quedistas, que tão relevante serviço prestou, foi sendo progressivamente extinto. O Dec. Lei 34-A/1990, formalizou a não admissão de novos ingressos, reduzindo os efectivos à medida da passagem à reserva ou reforma dos seus membros.
Aqui ficam os nomes dessas seis mulheres pioneiras: Tenente Maria Arminda Lopes Pereira dos Santos, Alferes Maria de Lourdes Rodrigues, Tenente Maria Zulmira Pereira André, Alferes Maria do Céu da Cruz Policarpo, Alferes Maria Nazaré Mascarenhas Andrade e Major Maria Ivone Quintino dos Reis.
O Corpo de Enfermeiras Paraquedistas foi homenageado em 10 de Dezembro de 2025 pela Força Aérea Portuguesa com a Medalha de Mérito Aeronáutico de 1ª Classe, com a presença do Ministro da Defesa Nuno Melo, tendo sido também descerrada nas instalações do Comando Aéreo, uma placa evocativa dos nomes de todas as Enfermeiras Paraquedistas que serviram nesse Corpo
Madrinhas de Guerra
O conceito nasceu com a participação do Corpo Expedicionário Português na IGG, em 1916.
O impulso para a sua adaptação às circunstâncias das guerras coloniais, veio do Movimento Nacional Feminino, fundado em 1961 por Cecília Supico Pinto, esposa de Luis Supico Pinto, Ministro da Economia entre 1944 e 1948.
As madrinhas de guerra eram por norma mulheres jovens, maiores de idade, solteiras, de várias classes sociais, voluntárias que “adoptavam” um soldado desconhecido. Constituía requisito indispensável ter “moral idónea, espírito patriótico e fé inabalável na vitória”. Nesta perspectiva, eram também um instrumento de apoio à política colonial e à guerra. Correspondiam-se com o “afilhado” por aerogramas, enviando-lhes pacotes com tabaco, alimentos, agasalhos e fotografias. Estabeleciam igualmente contacto com os familiares dos soldados, fornecendo-lhes apoio moral e por vezes material.
A sua importância na manutenção do moral dos jovens soldados, mitigando o isolamento e a solidão nos longínquos quarteis, era tal que se tornou corrente a frase “não receber carta era pior que uma bala do inimigo”.
Calcula-se que durante os mais de 13 anos de duração dos conflitos coloniais, tenham circulado mais de 300 milhões de aerogramas. Fatalmente, estabeleceram-se entre madrinhas e afilhados em muitíssimos casos, laços afectivos de que resultaram amizades duradouras, namoros e casamentos após o regresso dos soldados.
Segundo quartel de 1965-Acontecimentos relevantes
As deserções de soldados portugueses do teatro de operações, passando-se para o lado que combatiam, foram no período das guerras coloniais acontecimentos relativamente raros. Era de certa forma corrente, a deserção no período de férias na Metrópole. A este propósito vale a pena referir que estimativas de estudiosos deste fenómeno, apontam para 200 a 300 000 jovens que se furtaram ao serviço militar, entre desertores e refractários (não se apresentaram ao serviço militar).
No dia 25 de Março desertaram de Fulacunda na Guiné, três militares, os cabos milicianos António Manuel Marques Barracosa, José Augusto Teixeira Mourão e Armando Correia Ribeiro. Em Conacri o grupo foi muito bem recebido pelo PAIGC, que os utilizou numa intensa campanha de propaganda. Anos mais tarde, Barracosa voltou a ser notícia ao participar no assalto da LUAR de Palma Inácio, ao Banco de Portugal na Figueira da Foz. Estas deserções são as primeiras registadas nestas condições. Há outros casos na Guiné, Angola e Moçambique. Informação mais completa sobre esta matéria está acessível à eventual curiosidade dos leitores.
O Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, regista o depoimento do desertor Manuel Veríssimo Vizeu, 1º cabo dos Comandos, nascido em 1946, que desertou de Cuntima para o Senegal, em data não especificada no depoimento, (chegou à Guiné em Maio de 1968) no qual justifica a sua deserção com os crimes de guerra que a sua Companhia teria cometido contra a população civil e com os quais não quis compactuar.
Sob a liderança de Paulo Gumane, (dissidente da FRELIMO) e Adelino Gwambe foi fundada em Lusaca na Zâmbia o COREMO, Comité Revolucionário de Moçambique, com o objectivo de, aproveitando a sua base na Zâmbia, infiltrar-se e estender a luta armada à Província de Tete. Contando com o apoio do governo zambiano, este movimento foi visto por alguns países como uma alternativa mais pragmática e menos alinhada ao bloco soviético que a FRELIMO. Foi o único movimento que conseguiu estar em luta no terreno, a par com a sua rival durante a década de 60. Divisões internas e a hegemonia da FRELIMO (o COREMO tentou sem sucesso obter o reconhecimento da OUA) ditaram o seu fim, com a captura de alguns dos seus líderes pelas autoridades coloniais. Hoje é lembrada como um símbolo do pluralismo nacionalista, evidenciando que o movimento independentista não foi monolítico, mas com várias visões para o futuro de Moçambique.
A descoberta pela polícia espanhola dos cadáveres de Humberto Delgado e Arajaryr Campos, em Malos Pasos, Villanueva del Fresno, em 25 de Abril, notícia transmitida pela Associated Press, gerou um escândalo internacional que expôs a já internamente conhecida e habitual violência do Estado Novo. Os corpos foram encontrados em valas pouco profundas e em adiantado estado de decomposição. Para dificultar a identificação, os criminosos da PIDE utilizaram ácido sulfúrico e cal viva sobre os cadáveres. Salazar com o seu conhecido cinismo negou a autoria moral dos crimes, atribuindo-os a lutas intestinas da Oposição.
O financiamento do esforço de guerra e a necessidade de promover o desenvolvimento das colónias, levou os Ministérios das Finanças, Ultramar e Economia a elaborar o Dec. Lei 46312, promulgado em 28 de Abril, definindo o regime jurídico do investimento estrangeiro no espaço comum português. Teve um papel determinante no desenvolvimento das colónias, especialmente Angola e Moçambique. Algumas restrições deste diploma foram levantadas pelo Dec. Lei 46666 de 21 de Novembro, abrindo novas áreas de investimento a grupos nacionais e estrangeiros nas colónias. A sua revogação ocorreu já depois do 25 de Abril, em 1977.
A região de Morés (ou Mores, segundo alguns autores) era considerada uma região libertada da Guiné. Militares que fizeram a guerra nessa região e no período em análise, contestam fortemente esta ideia, citando inclusivamente operações na mesma área em 1963 e 1964. Era uma região de mata densa, de difícil acesso, sede de pequenas bases móveis e importantes depósitos de material de guerra, distribuídos a partir dali para outras frentes. O Comando Militar da Guiné lançou em 3 de Maio a Operação Irã, com o objectivo de desmantelar esse reduto, desarticular essas bases, destruir infraestruturas, apreender armamento e interromper o fluxo do mesmo para outras regiões. Foi levada a cabo pelo Batalhão de Artilharia 733, que englobava as Companhias 566, 730 2 732. Foi apreendida cerca de uma tonelada de material de guerra, armamento, munições e minas de todos os tipos. Sobre eventuais baixas de ambos os lados não há dados fiáveis disponíveis.
Foi uma operação com um êxito muito relativo, já que não conseguiu desalojar permanentemente o PAIGC daquela zona, o que obrigou mais tarde ao lançamento de outras operações, como a Operação Hermínia em 1966.
Em 7 de Maio o Senegal solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para denunciar repetidas violações do seu espaço aéreo e fronteiras terrestres pelas tropas portuguesas, alegando que desde 1963, Portugal tinha cometido 13 novas violações de fronteira, incluindo uso de artilharia contra aldeias e queima de colheitas, citando o caso concreto da aldeia de Bouniak como prova. Na reunião de 13 de Maio do CS da ONU, Portugal rejeitou as acusações, argumentando que o responsável era o PAIGC, que operava contra a Guiné a partir do interior do Senegal e que as tropas portuguesas exerciam apenas o direito de perseguição. Em resultado desta queixa, o CS da ONU, reunido no dia 21 deste mês, condenou por unanimidade Portugal pelas suas incursões armadas no país vizinho.
Uma das operações mais significativas do PAIGC no extremo leste da Guiné teve lugar no dia 20 deste mês, ao cercar e atacar durante três horas o quartel e povoação de Beli, com a utilização de metralhadoras, morteiros e lança granadas RPG. Cerca de 95 casas da povoação foram destruídas e a única casa comercial foi pilhada e igualmente destruída. Os atacantes tiveram algumas baixas e vários feridos. As nossas tropas tiveram nove feridos e duas viaturas destruídas. Parte da população da aldeia foi forçada a acompanhar os guerrilheiros. Este ataque marcou a pressão crescente da guerrilha nas zonas mais interiores e remotas, obrigando à dispersão de recursos para reforço da proteção aos quartéis isolados.
Na noite de 21 para 22 de Maio, a sede da Associação Portuguesa de Escritores (SPE) em Lisboa, foi assaltada e vandalizada, por encapuçados ligados a organizações de extrema direita, com cobertura da PIDE. A causa próxima foi a atribuição do Grande Prémio da Novelística à novela Luuanda de Luandino Vieira, nacionalista angolano preso no Tarrafal, acto considerado traição pelo regime. A SPE foi extinta, presos e submetidos a interrogatório, três membros do júri, Alexandre Pinheiro Tores, Augusto Abelaira e Fernanda Botelho. A obra Luuanda foi proibida pela Censura e a imprensa foi instruída a publicar apenas notas de repúdio ao prémio. A SPE viria a renascer apenas 8 anos depois, em 1973 com o nome de Associação Portuguesa de Escritores (APE). De salientar que Luuanda foi revolucionário pela rotura estética e linguística que introduziu na literatura portuguesa, fundindo a língua do colonizador com o quimbundo e com a oralidade dos musseques de Luanda, dos quais retrata em três estórias, a vida quotidiana através de personagens comuns, como a Vovó Xi, o desempregado Zeca Santos ou o deficiente Garrido. Luuanda era profundamente “subversivo” por afirmar uma identidade angolana, com uma cultura própria.
A Cultura foi sempre uma pedra no sapato da Ditadura. Ainda este mês serão presos em Lourenço Marques, vários intelectuais moçambicanos, entre os quais José Craveirinha, Domingos Arouca, Rui Nogar e o pintor Malangatana. Como era usual no regime, os crimes contra a segurança do Estado eram julgados em Tribunais Militares. Curiosamente o Tribunal Militar Territorial de Moçambique, numa decisão inédita e para grande frustração da PIDE, absolveu todos os nacionalistas.
O acontecimento mais importante do mês de Junho de 1965 foi a mudança da atitude complacente da Administração Johnson, traduzida numa carta enviada pelo Departamento de Estado ao embaixador em Lisboa Almirante G. Anderson, um militar com posições pró-portuguesas. Esse documento era uma espécie de “caderno de encargos” do embaixador, no seu posicionamento face ao regime salazarista. Resumidamente os EUA defendiam a realização de um plebiscito nas colónias, sob controle da ONU e OUA, visando uma futura independência e estabelecendo um período de transição de oito anos. O embaixador deveria propor um pacote de garantias políticas e assistência económica a Portugal, como compensação da perda das colónias. Como seria de esperar, Salazar recusou liminarmente a proposta.
Menos de um ano depois do início da luta armada em Moçambique, explodiria este mês a primeira mina anti-pessoal na zona do Niassa. Este tipo de armas era especialmente temido pela infantaria, pelos seus efeitos físicos e morais nas tropas combatentes. A FRELIMO viria a utilizar no decurso da guerra, grandes quantidades de minas anti-pessoal e anti-carro, que se tornariam um verdadeiro flagelo para as nossas tropas. Até 1970 o número de minas anti-pessoal acionadas aproximou-se das 2000.
Como se sabe, após as eleições presidenciais de 1958, Salazar alterou a Constituição (Reforma Constitucional de 1959) e modificou o sistema de eleição do PR, evitando correr riscos e sobressaltos semelhantes aos proporcionados por Humberto Delgado. Instituiu um Colégio Eleitoral, cuja composição era estritamente controlada pelo ditador. As candidaturas saíam do seio dos fiéis do regime e a “eleição” estava garantida à partida, logo vedada completamente às oposições. Américo Tomás foi proposto pela União Nacional e ocupou o cargo até ao 25 de Abril.
O Dec. Lei 46410 de 29 de Junho institucionalizou o Centro de Instrução de Comandos (CIC) em Luanda, decisão que marcou a consolidação das tropas de elite do EP que até então se formavam em centros de instrução provisórios. O primeiro comandante do CIC foi o major Gilberto Santos e Castro, figura central na organização e na doutrina destas tropas.
No último dia deste mês, 30 de Junho de 1965, teve lugar uma importante deserção, que criou uma crise profunda no seio da FNLA e do GRAE. Alexandre Taty, antigo funcionário colonial, vice-presidente e ministro da Defesa do GRAE, entregou-se às autoridades portuguesas em Cabinda. Taty tinha antes liderado uma tentativa fracassada de depor Holden Roberto, após o que decidiu tomar essa decisão, criando uma profunda crise reputacional e de liderança no seio do movimento. Recordemos que Jonas Savimbi, Ministro dos Negócios Estrangeiros do GRAE, incompatibilizado com Holden Roberto, tinha saído em Julho de 1964.
Com Taty abandonaram a UPA centenas de guerrilheiros e vários comandantes. Com estes meios humanos, Taty, a quem foi atribuída a patente de major, formou a Junta Militar de Angola no exílio. O Comando Militar de Angola decidiu formar uma força militar irregular, nomeando oficiais do Exército para os enquadrar. Foram formados dois agrupamentos num total de 600 homens para realizar operações no Sector de Cabinda e no de S. Salvador do Congo, além de golpes de mão no interior dos Congos Leopoldville e Brazzaville. Estes agrupamentos haveriam de dar origem às chamadas Tropas Especiais (TE), que em conjunto com outras tropas irregulares, Grupos Especiais (GE), (1966) Comandos Africanos (1971) e Comandos Katangueses (Fiéis de Kamissombo 1966) viriam a ter um importante papel no auxílio ao EP, na sua luta contra os movimentos independentistas nas três frentes de combate.
(Continua)