Constituição da República Portuguesa
Artigo 13º
(Princípio da Igualdade)
Kimi Djabaté (1975, Tabato, Guiné‑Bissau) é um músico afro‑beat/blues e um griot moderno que vive em Lisboa há quase trinta anos. Começou a tocar balafón aos três anos e desenvolveu uma linguagem musical própria, onde combina tradições mandingas com géneros africanos como gumbé, afrobeat e morna, além de jazz e blues. Ao longo da sua carreira, lançou quatro álbuns: Teriké (2005), Karam (2009), Kanamalu (2016) e Dindin (2023), este último alcançando o 1.º lugar no Transglobal World Music Chart em abril de 2023.
Em 2025, celebrou 25 anos de carreira na Voz do Operário, acompanhado por convidados como Selma Uamusse, JP Simões e Ebraima Mbye.
Na véspera do Dia Internacional da Mulher, assistimos a um concerto especial na Galeria Zé dos Bois, onde Kimi partilhou o palco com a violinista e multi‑instrumentista portuguesa Maria da Rocha. Foi uma noite de encontros improváveis entre a tradição mandinga — herdeira do Império do Mali — e a experimentação contemporânea, num ambiente de profunda proximidade entre artista e público.
A nossa entrevista decorreu no Jardim do Príncipe Real, entre espetáculos e árvores ancestrais.
Obrigada, Kimi. Há poucos dias ouvimos-te num concerto, num ambiente muito especial. Que outros projetos tens em mãos neste momento?
Tenho trabalhado muito e vou dar três espetáculos no Canadá, integrados no Festival Nuits d’Afrique, em Montreal e em Toronto. Depois sigo para a Guiné-Bissau onde me quero encontrar com vários músicos e também estar com a minha família.
É verdade, no dia 7 de março dei um concerto intimista na Galeria Zé dos Bois com a Maria da Rocha, uma artista que admiro muito. Esse espaço acolheu-me há 20 anos, no início da minha carreira, e foi especial regressar ali — ainda mais por coincidir com as vésperas do Dia da Mulher. Foi um momento de muita energia e reencontros.
As letras das tuas canções abordam o amor, a espiritualidade e a ancestralidade, mas também temas sociais e políticos, a liberdade e os direitos humanos, em particular a condição da mulher no teu País.
Na verdade, eu falo sobre as mulheres do Mundo, que até hoje não são vistas como pessoas que conseguem fazer aquilo que os homens podem fazer. Sobretudo, em África. E também canto sobre a condição das crianças, que é uma realidade que conheço muito bem. As crianças são obrigadas a trabalhar muito cedo, e não têm acesso à educação. A mulheres tomam conta dos seus filhos e trabalham como escravas. Eu sou uma pessoa que defende o direito das mulheres, o direito das crianças, os direitos dos seres humanos.
Na Guiné-Bissau a língua oficial é o português mas existem cerca de 21 línguas. Em que línguas cantas?
Canto principalmente em mandinga e, às vezes, em crioulo.
Muitas das tuas canções são histórias de vida... como aquela homenagem à tua Mãe “Ná”
Tenho essa experiência de vida. O meu pai faleceu muito cedo, quando eu tinha 12 anos de idade. A minha mãe rejeitou ser “herdada” por um seu irmão, como é tradição, ficando sozinha com oito filhos. Por, isso, eu sei o que é ser Mulher…na verdade, ao contrário do que se diz, elas têm um papel muito importante na comunidade e são o seu sustento. Sempre fui muito ligado à minha Mãe e acompanhei o seu sofrimento e o seu choro. Lidei muito com ela porque tocava muito bem desde pequeno e ela leva-me sempre aos casamentos e batizados.
És de uma família de griots. Explica um pouco o que isso representa na tua cultura?
Griots são as pessoas que começaram a fazer música na Africa Ocidental antes da chegada dos colonizadores entre os séculos XII e XIII. Na altura, o Império Mali, fundado por Sundiata Keita que unificou diversos povos mandês, tornou-se um centro de comércio conhecimento e cultura. Os griots foram acolhidos no palácio para cantar e tocar para o imperador. Foi através da música que conseguiram transmitir a vontade do povo e dar alegria aos povos.
E essa música inspirou outros povos?
Vou contar‑te uma história curiosa. Existe uma ligação importante entre o blues e os griots da África Ocidental. Diz-se que alguns ritmos do blues foram inspirados no som do andamento dos cavalos dos imperadores, porque os griots viajavam com eles. Com a chegada dos colonizadores, muitos griots acabaram também por ser levados na travessia transatlântica durante o tráfico de escravizados. Por isso, pode-se dizer que há uma ponte cultural entre a tradição griot e os primeiros músicos de blues nos Estados Unidos. O jazz, por sua vez, lembra-me a minha aldeia. Lá, todos eram griots. Chegava a altura em que os mais velhos chamavam os mais novos e perguntavam: “O que gostarias de ser?” E cada um respondia à sua maneira: um queria ser balafonista, outro bailarino, outro cantor, outro historiador… Cada pessoa tinha o seu papel, o seu lugar, a sua voz. Nesse encontro de talentos havia sempre um momento curto de improviso. Era nessa altura que os mais velhos percebiam quem eram os melhores, em que cada um tinha que dar o seu melhor e destacar-se por si. É o que acontece nos concertos de jazz nos solos, em que todos tocam ao mesmo tempo e depois há um instrumentista que se evidencia e prossegue sozinho. Apercebi-me desta semelhança ainda na Guiné-Bissau, em que fiz uma colaboração com uma banda de jazz francesa nos anos 90. Convidaram-me para dois concertos com balafón. Quando vi o primeiro ensaio deles percebi que era o que fazíamos quando eramos crianças nos encontros de talentos.
E na tua música vais buscar essa tradição mas também outras influências…
É evidente que eu tenho essa tradição presente em mim. Mas eu faço as minhas composições com outras influências musicais, mas também inspirado nas causas que defendo e que fazem sentido para mim: a causa das mulheres, a causa das crianças. Foi muito boa a minha experiência de emigrar para poder perceber a minha realidade de uma outra forma.
Tocas muitas vezes em dupla. É uma busca tua de outras sonoridades?
Gosto muito de partilhas, como aconteceu na GZB com a Maria da Rocha, mas também com a Madonna com a participação no seu álbum Madame X. Em 2022, também tive uma experiência de tocar com 120 artistas de todo o mundo ao mesmo tempo. Adoro essas experiências. Estou aberto para aprender todos os dias, crescer … e acho que todos os seres humanos deveriam ter essa postura. A minha música não tem casa fixa. Onde sou convidado é a minha casa.