FALARES POPULARES
Falar é um processo de comunicação utilizado pelas pessoas entre si, e é uma capacidade exclusiva da espécie humana.
Os falares do povo sempre influenciaram muito a transformação e a evolução das línguas, e o isolamento de povos originou formas de falar específicas.
As pessoas da região de Mação estiveram durante séculos circunscritas, na sua grande maioria, à localidade ou aldeia em que habitavam.
A inexistência de vias de comunicação fáceis proporcionou isolamentos que, com toda a certeza, terão contribuído para se construírem, herdarem e manterem formas de falar específicas, desde o nome de objetos até formas de expressar ideias e sentimentos.
Há nomes de objetos e expressões de ideias que nos são próprios e há também formas orais de pronunciar nomes comuns que caracterizam bem esta região. São exemplos disso, o dizer coresma (em vez de quaresma), despois (depois), doudo (doido), dous (dois), leute (leite), nacem (nascem).
Propomo-nos, por isso, apresentar neste jornal alguns textos apropriados, baseados em critérios empíricos, que não científicos, com que ilustrámos exemplos de falares próprios do concelho de Mação, em tempos idos.
Quem, viajando nos limites do concelho de Mação, ao passar para o Norte, à saída de Envendos, abica à garganta formada pelas serras da Forca e do Caldeirão, uma bastante íngreme e pedregosa e a outra coberta de verdes matos, e notará maneiras mais adiente um pequeno caminho à sua direita.
O viajante que por aqui andasse ficaria com curiosidade de saber onde levará tal caminho, que se desenvolve através de um verde e por vezes luxuriante vale, que ladeia a cadeia de montanhas, que vai terminar nas margens do robusto Rio Ocresa, no extremo leste do concelho.
Contam os nossos avós mais remotos que em tempos já muito recuados e em pleno período estival, uma extensa caravana, formada por gentes de fora, tendo abalado da sua terra, caminhando, uns à pata, outros escarranchados em alimárias, através do país rural, ao deparar-se-lhes à direita este verdejante vale, terão decidido avançar foutos por ele, no seu caminhar para o interior.
O lado direito do caminho que vinham percorrendo, o lado da avesseira, pouco exposto ao Sol, é protegido por uma cordilheira de íngremes serranias e estava bem ornamentado com frondosos e vetustos castanheiros, que na época estival começavam a ficar abrilhantados com airosa folhagem recortada, envolvente de autênticos cachos de lindos ouriços, o esplendoroso invólucro da castanha.
Fora a castanha um produto abundante em tempos idos, uma base muito forte da alimentação das populações. O castanheiro, de troncos enormes e uma imensa e frondosa copa, imprimia na altura a este vale um sentimento de força e de grandeza.
Era uma imponente árvore que proporcionava uma tríplice vantagem: fornecia a castanha para alimento, a lenha para o lume e carpintarias e a sombra nas calmarias de verão. Diziam estes avós que esta soberba árvore levava cem anos a crescer, cem anos a ser e cem anos a morrer.
Mas em época não muito recuada deu, por aqui, o mal ao castanheiro e desapareceram todos.
O outro lado do vale, formado por cabeços sem fim, ostentava, de onde em onde, uma impressionante cor amarela, a eleita segundo parecia por estes campos. Era de um lado o tojo, planta áspera, dura, ingrata para quem não se aprecatasse, e lhe tocasse e que mostrava uma flor amarelo vivo e eram encostas a perder de vista; a par via-se a carqueja, um arbusto de grande utilidade para os habitantes e que, naquela quadra do ano, se revestia de tons de amarelo e de acastanhado, que eram um encanto para o olhar; era o anecril, com uma floração que ia do branco ao azul ;eram despois as moutas ou urzes com uma copiosa flor branca e lilás e que embelezava os sítios mais húmidos, incluindo as margens da ribeira que corria paralela ao caminho que a comitiva estava percorrendo. Era uma planta de enorme utilidade que os habitantes usavam para atapetar quer as ruas da aldeia, quer os currais onde recolhiam o gado.
Mais adiente, amonta um extenso campo de estevas, na época em plena floração, um branco alvar com um nítido olho bem amarelo no centro. Era uma amplidão enorme, cobrindo cabeços e mais cabeços, a perder de vista. Era bem conhecida a qualidade do queijo da região, que, obtido na época da floração da esteva, constituía um manjar tão apetitoso, que ainda hoje disputa em qualidade com outros. É que a flor da esteva, ingerida pelos caprinos, crê-se que imprimia ao queijo um sabor único, quando curado, capaz de rivalizar com os melhores queijos.
Atravessando este verdejante ambiente, mesclado de cores vivas impressionantes, prosseguia a caravana composta por variadas gentes, seguindo vale abaixo e torneando a ribeira, que de onde em onde apresentava um gorgolejar de áuguas limpas e algum pequeno açude, onde ténues quedas de borbulhante áugua faziam um ruído que era o único som ouvido naquelas paragens. Mas a sua contemplação amenizava a dureza do caminhar debaixo de um calor sufocante em plena época estival.
Chegam entonces à vista de uma aldeia alcantilada nuns montes e encostas. Eram mais de meia dúzia de casas rurais, cada uma com o seu alpendre onde recolhiam os gados. Era a Zimbreira. A população admirada com tão inesperados e vistosos visitantes, indagou o que pretendiam e, havendo eles respondido que se encaminhavam para o Norte, sugeriu-lhes que continuassem, entretanto, pelo caminho que traziam e fossem refrescar-se e dessedentar-se junto a um muito aliciante e muito bucólico açude, uma centena de metros mais abaixo.
Era efetivamente um local extraordinário, uma passagem apertada entre duas serras - a serra da Cabrueira e a serra do Castelo Velho, um lugar revestido de uma cor verde de matizes variados, uma abundância de áuguas escorrendo não só da ribeira, como também de nascentes abundantes no sopé das duas montanhas.
Ao lado direito notava-se um vetusto moínho, movido a áugua, cujo moleiro sentindo aproximar-se tão grande comitiva, saíu fora, todo enfarinhado, mas com simpatia vinha dar as boas-vindas a estes súbitos visitantes.
Junto a um açude ali perto, havia-se formado ao longo dos tempos uma enorme charca de áugua, bastante funda - um pego, seguido de um recanto plano, todo revestido agradavelmente por um manto verde. A comitiva entonces muito ajoujada decidiu arriar ali e descansar junto a um mofedo de vegetação.
Osdespois a amenidade do local, a frescura ali sentida e o enfado que mostravam foram um salutar convite a uma sesta naquele local e a oportunidade de, à sombra de uma carrasqueira, retemperarem as forças. Retiraram das sacolas um saboroso farnel, que prantaram ali mesmo à disposição de toda a gente.
Despois foi um achegar às áuguas, e alguns dos mais foutos aproveitaram para se banhar, tanto na áugua da ribeira, como nas quedas de áugua das nascentes, que copiosamente caíam por ali vindas das serras.
´Inda bem não emerge do meio da caravana uma liteira, donde sai uma formosa Senhora, vestida de cor-de-rosa pálido, ornada com um cordão dourado. Avança para diente e vai até junto à áugua do pego e molha com muito agrado o pé, mostrando um ar de grande satisfação.
Caro leitor, esta é a lenda, que nos contaram e nos legaram os nossos avós. A linda Senhora, já adivinhou, terá sido a encantadora Rainha Santa Isabel, esposa do rei Dom Dinis.
Assim desde essa altura, ficou nomeado aquele local como “O Pego da Rainha”.
António Pereira Torres e João Pires da Silva
Abalar - Ir embora, partir; Abicar - Aproximar-se de; Achegar - Chegar; Adiente - Adiante; Ajoujada - Cansada; Alimárias - Bestas; Amontar - Espreitar, aparecer; Anecril - Alecrim; À pata – A pé; Aprecatar - Acautelar; Arriar - Abaixar; Áugua - Água; Avesseira –Terreno húmido do lado oposto ao Sol; Cabeços - Montes; Carqueja - Planta silvestre; Carrasqueira - Arbusto silvestre; Despois - Depois; Diente - Diante; Enfado -Cansaço; Entonces - Então; Escarranchados - Posto em cima do jumento; Estevas - Planta silvestre; Farnel - Comida; Foutos - Audazes, valentes; ´Inda bem não-quando; Lenda - Tradição popular; Maneiras - Um pouco; Mofedo – Silvado denso; Moutas - Planta silvestre; Osdepois - Depois; Pego - Ponto profundo de uma ribeira ou rio; Prantaram - Colocaram; Sesta - Descanso às horas de maior calor; Tojo - Planta silvestre.