Sílvia Vasconcelos
Poetisa, veterinária, antiga deputada na Assembleia Regional da Madeira, minha amiga, madeirense tal como eu, é uma mulher que muito admiro.
Tal como Manuel Alegre tinha com o Kurika, seu cão e protagonista no livro “Cão como nós”, Sílvia tem um enorme amor por cães e gatos.
Desafiei-a a escrever para a CARDUS. Este texto, que a Sílvia nos apresenta, é um dos temas que estudou no âmbito do seu doutoramento onde concluiu que há “Benefícios dos animais de companhia para a saúde mental dos idosos” e também das crianças.
Admiro a Sílvia também como poetisa:
(…) num ímpeto, acariciou-o também,
percorrendo-lhe a pele, na ânsia enganadora
de o conter
O desejo ditou a sentença dos beijos
e dos abraços que se seguiram, ansiosos,
sôfregos e ávidos de réplicas, inspirou tremores
e arrepios, que as mãos e os lábios acordavam (…)
in “Arestas” publicado em 2023.
Gosto muito de ti, ó Sílvia.
Muito obrigado.
António Acciaioli Campos
Há quem não resista a adotar um cão, e de facto ter um cão é uma experiência que pode ser muito positiva para o ser humano, revertendo-se mesmo em benefícios para a sua saúde física e mental. Mas há aspetos e mesmo obrigações legais que todo o adotante deve conhecer para ponderar melhor a sua decisão, pois adotar uma animal é uma responsabilidade e um compromisso a longo prazo (que pode ser de 15 ou mais anos consoante a raça e o porte do animal). Por tal, a adoção de um cão tem de ser uma escolha consciente e planeada! Por exemplo, há desde logo três aspetos que se deve ter em conta aquando da adoção de um animal: o espaço que se tem em casa; o tempo que se dispõe para os cuidados e passeios do animal (Trabalha o dia todo? Viaja muito? Quem ficará com o animal? Tem noção que um cão larga pelo, o que requer mais higienização em casa?); e também os recursos financeiros que se dispõe para assegurar o bem-estar do animal (desde a alimentação, seguro, médico veterinário, etc.…).
Quanto ao espaço: há diferenças entre deter um animal num apartamento ou numa moradia. No primeiro caso, há que ter cuidado com tomadas e fios elétricos, produtos de limpeza, por ex. No segundo caso, há que assegurar um abrigo seguro e coberto se o animal ficar na rua, ter vedações e estar informado sobre plantas venenosas que possa haver no exterior (figueiras-da-índia, cíclames, azevinho, visco, filodendros, aloés, narcisos, jacintos, íris, azáleas, rododendros, oleandros e ervilhas-de-cheiro). Animais de grande porte requerem mais espaço o que nem sempre é compatível com apartamentos.
Há que ter em conta que será necessário adquirir equipamentos como comedouros suficientes ao dispor do animal, bebedouros, uma trela e coleira ou arnês, assim como escovas, corta-unhas e brinquedos que estimulem o animal, no cumprimento da satisfação do seu comportamento natural.
No que concerne à alimentação, é preciso assegurar que a ração é adequada à idade do animal e ao tamanho e necessidades especificas/particulares do animal adotado.
O animal deve ter um local para descanso/dormir e que seja também um espaço de refúgio, onde se sinta confortável, tranquilo e seguro.
Quanto ao acorrentamento: Não acorrente o seu animal! Mas se tiver de o fazer por razões segurança, por exemplo, nunca o deixe preso o dia inteiro e menos ainda durante toda a sua vida! Se houver necessidade de o fazer a corrente deve ser comprida, a coleira não estranguladora e o animal deve ser solto e passear todos os dias, para se poder exercitar.
No que se refere à saúde, os cuidados médico-veterinários devem ser assegurados. Deve sempre marcar-se uma primeira consulta para avaliação da saúde do animal e para se planear a vacinação, desparasitação e esterilização do animal por forma a prevenir ninhadas indesejadas. A esterilização: não é obrigatória (exceto em alguns casos específicos, como animais potencialmente perigosos), mas é altamente recomendada para controlo da população animal e também para a prevenção de certas doenças.
Antes de adotar um cão, converse com a sua família: é importante que toda a família esteja de acordo com a entrada do animal em casa, devendo ser toda envolvida no processo de acolhimento, adaptação, cuidado e socialização do animal. É ainda importante que se certifique que ninguém na família tem alergias a animais. Se tem filhos menores, há que ensinar às crianças como se devem comportar perante um cão e acautelar que estas nunca ficam sós com o animal.
Se tiver outros animais de estimação quando for adotar um cão, deve fazer a correta apresentação dos animais e de forma gradual. É também importante que os animais sejam socializados com a família adotante, mas também com outras pessoas e animais, diferentes ambientes, lugares, sons, contextos, etc. Neste aspeto, o treino de obediência básica reveste-se de grande importância e deve ser ministrado ao animal desde cedo, sempre com reforço positivo, e por um treinador certificado, preferencialmente.
No que diz respeito aos passeios do animal, estes são imprescindíveis e devem ser proporcionados regularmente para que os animais se exercitem e sejam estimulados mentalmente. Outro aspeto a ter em conta é a rotina: os animais necessitam de rotina! Por isso deve definir-se uma rotina diária para a alimentação do animal, para os seus passeios, treinos ou outras atividades.
É preciso também que se assegure a higiene do animal, escovando-o regularmente, sobretudo durante as mudanças de pelo e dando-lhes banho quando necessário com produtos adequados à sua espécie. Neste item há que ter conta também os cuidados com as unhas, dentes e ouvidos.
Não menos importante que o exposto: o civismo na rua/espaços públicos e comuns. Os detentores devem recolher as fezes do seu cão quando os levam a passear à rua e colocá-las no lixo e para tal devem andar sempre munidos de um saco para recolha dos dejetos.
Fora o que se detalhou, há também outras obrigações legais, como a vacinação obrigatória da raiva e a identificação eletrónica dos cães que devem ter uma Licença da Junta de freguesia da área de residência. Um seguro civil é sempre aconselhável, e no caso de raças potencialmente perigosas, que têm legislação especifica, este é mesmo obrigatório.
Ter um cão é uma experiência que enriquece a vida de quem está predisposto a acolhê-los. Usufrua (e “abuse”) dessa experiência, mas com responsabilidade.
Sílvia Vasconcelos
Médica Veterinária doutorada em Ciências Veterinárias