FALARES POPULARES
Falar é um processo de comunicação utilizado pelas pessoas entre si, e é uma capacidade exclusiva da espécie humana.
Os falares do povo sempre influenciaram muito a transformação e a evolução das línguas, e o isolamento de povos originou formas de falar específicas.
As pessoas da região de Mação estiveram durante séculos circunscritas, na sua grande maioria, à localidade ou aldeia em que habitavam.
A inexistência de vias de comunicação fáceis proporcionou isolamentos que, com toda a certeza, terão contribuído para se construírem, herdarem e manterem formas de falar específicas, desde o nome de objetos até formas de expressar ideias e sentimentos.
Há nomes de objetos e expressões de ideias que nos são próprios e há também formas orais de pronunciar nomes comuns que caracterizam bem esta região. São exemplos disso, o dizer coresma (em vez de quaresma), despois (depois), doudo (doido), dous (dois), leute (leite), nacem (nascem).
Propomo-nos, por isso, apresentar neste jornal alguns textos apropriados, baseados em critérios empíricos, que não científicos, com que ilustrámos exemplos de falares próprios do concelho de Mação, em tempos idos.
As tardes de Quinta-Feira da Paixão de Cristo e as manhãs do dia seguinte, Sexta-Feira Santa, sempre foram considerados espaços temporais de zeloso respeito religioso. Fosse por devoção ou por temor divino, as gentes aldeãs doutros tempos não ousavam transgressões. Mesmo os assumidos descrentes, e ainda que moneando, respeitavam aqueles dias-santos.
Nesses períodos, suspendiam-se todos os trabalhos nos campos; mesmo dentro de casa as tarefas permitidas resumiam-se ao estritamente indispensável: tratar dos arrumos e do avio da comida para a família e animais. Mais nada!
Às refeições, e quando não fora delas, estava banido o consumo de carne. De resto, esta regra de abstinência deveria ser observada em todas as sextas-feiras da Quaresma.
As mulheres tão-pouco podiam lavar as roupas. Garantiam as mais idosas que, toda a roupa que fosse lavada nesses dias, ao corar, ficaria pintalgada com nódoas de sangue que, nem o melhor sabão ou a mais pura lixívia conseguiriam remover. Havia quem garantisse que seriam sinais do próprio sangue de Jesus Cristo.
De resto, nesses dias a própria Natureza se submetia a registos objetivamente atípicos. O horizonte celeste, já abrilhantado com as luminosidades próprias do início da Primavera, toldava-se sobremaneira. Nuvens negras e gigantescas obumbravam os ares e ameaçavam travoada e escardoçada a qualquer momento. De quando em vez, ribombavam mesmo travoões ameaçadores, que infundiam temores de monta, capazes de, hiperbolicamente, pôr os cabelos em pé a muitos habitantes das aldeias. Pela meia-tarde, assinalando o momento em que Jesus Cristo expirara na cruz, tudo parava. Uma quietude a um tempo opressiva e sedutora. Até as brisas se sustavam. Nada mexia. Mesmo a passarada suspendia as cabriolices e os trinados. Experimentava-se um ambiente místico.
Ora, era justamente a tarde de Quinta-Feira Santa que o ti Jaquim Pinteeiro, a despeito do estatuto de ancião, aproveitava para cumprir um desígnio que repetia todos os anos, nesse dia. Tão-pouco se preocupava com o móbil por que se impunha tal empreendimento. Era uma tradição que cumpria por bel-prazer, que lhe terá sido inculcada, na meninice, por um tio padre. Por isso, desde que passou a ter autonomia e tineta, assumiu a prática desse preceito iniciático: a via-sacra das sete igrejas.
Desconhecia, por certo, que se tratava de uma tradição que remontava ao século IV da nossa era. Com efeito, já nesses tempos longevos, os devotos de Jesus Cristo, que habitavam em Jerusalém e arredores, tinham por hábito visitar sete igrejas. Contudo, foi São Filipe Néri, o Apóstolo da Alegria, que, no século XVI, consolidou a devoção da visita às sete maiores basílicas então existentes em Roma, a Cidade Eterna: São Pedro, São Paulo Extramuros, São João de Latrão, Santa Maria Maior, São Lourenço, Santa Cruz de Jerusalém e São Sebastião. O objetivo daqueles crentes de outrora – e, doravante, assim continuou – era o de cumprirem o simbolismo[1] dos sete passos de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras – sabemos, de resto, que o número SETE, na Bíblia, significa a Perfeição de Deus, a Plenitude, a Completude.
Na consecução desse empreendimento o ti Jaquim Pinteeiro partia da Carregueira a meio da manhã, depois de ter orado na capela da Nossa Senhora da Estrela. Vencido o Penedo da Moura e a Portela dos Cavaleiros passava a vislumbrar a Cova da Onça e, logo após, a aldeia do Pereiro, em cuja capela rezava à Senhora da Saúde. Esperava-o novo estirão. Desta vez, até ao Vale de São Domingos. Aqui, orava a São Miguel, na capelinha à beira da estrada. Depois, em percurso já menos acidentado, demandava a vila de Mação, onde concluía as visitas remanescentes: em primeiro lugar, a capela de São Sebastião; seguia, depois, para a igreja matriz; a sexta estação era realizada alternadamente, ora na capela do Espírito Santo, ora na do Calvário; o termo da via-sacra era sempre na igreja da Misericórdia.
Em todas as capelas e igrejas, invocando o respetivo orago, sufragava a memória de familiares e amigos que se haviam finado no decurso do ano anterior; também encomendava o futuro das pessoas viventes que estimava, pedindo a intercessão dos santos padroeiros, venerados em cada um daqueles lugares sagrados.
Era um ritual que o ti Jaquim Pinteeiro repetia com profundo sentido religioso. Durante o percurso apenas se falava o essencial: era uma peregrinação, que não um passeio. Provavelmente sem o saber, o ti Jaquim Pinteeiro praticava o proselitismo dos primeiros cristãos: a catequese do exemplo.
Nos últimos anos, a filha, Rita passou a fazer companhia ao pai nestas andanças. Por fim, e mercê do inspirador exemplo, também a neta Maria Alzira, já espigadota, fazia questão de peregrinar com a mãe e com o avô. E lá ia toda ancha.
O repouso no conforto dos lares, era, por esses dias, secundarizado. A crença e a tradição impunham que se calcorreassem várias léguas, à torreira do sol, quando não borrifados com algum pé-d’água ou mesmo uma escardoçada. Não obstante, de cada viagem sobrariam marcas indeléveis nas vidas daqueles peregrinos; no regresso, carregavam as dores de pernas, de costas… do corpo todo. São sempre assim as iniciativas suscitadas pelo espírito… quem sabe se pelo Espírito Santo.
Dada a extensão do percurso, a neta, Maria Alzira, ia encarrapitada no dorso do burro, que, para além da criança, alombava ainda com os alforges, onde guardavam as merendas: a do próprio jumento, umas faixas de palha; a dos donos, um pão de milho, um punhado de azeitonas da talha, um naco de queijo de Castelo Branco ou da Amieira (carne, nem vê-la!) e, para sobremesa, um bolo finto. Para empurrar a comida, certamente uma garrafita de vinho da talha pesgada, para o ti Jaquim Pinteeiro; para a filha e neta, havia boas águas nas fontes e, quem sabe, talvez um pirolito, na vila. Era, apesar de tudo, um dia de festa.
Nos subúrbios da vila, escolhiam a sombra frondosa de uma laranjeira ou nespereira. Sentavam-se numa pedra, surripiada temporariamente a uma parede. Tratando-se de uma estrema, o ti Jaquim Pinteeiro não lhe tocava. Estrema era sinónimo de delimitação de propriedades – assunto demasiado sério, para justificar um assento temporário. E por ali merendavam, enquanto secavam os suores. Ao burrito também agradava o repouso. O dono libertava-o da albarda, para que refrescasse o lombo, enquanto lhe permitia que engavelasse as braçadas de folhas de milho.
Pelo fim do dia, regressavam à Carregueira. Cansados. Realizados. Com a alma cheia. E determinados a cumprir a tradição no próximo ano: realizar a Via-Sacra das Sete Igrejas.
Ancha – Vaidosa, satisfeita;
Cabelos em pé – Surpresa, medo;
Escardoça – Granizo;
Espigadota – Crescida;
Estrema – Marco de separação de propriedades rústicas;
Jaquim Pintieiro; Joaquim Penteeiro;
Monear – Murmurar;
Tineta – Discernimento;
Pé-d’água – Chuvada;
Pesgada – Tratada com pez, resina;
Travoada – Trovoada;
Travoões – Trovões.
Recolha: Carregueira, Mação
[1] Já as sete igrejas aludem às sete últimas palavras/expressões que Jesus Cristo proferiu, na cruz:
1) “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”;
2) “Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso”;
3) “Mulher, eis aí o teu filho”;
4) “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”;
5) “Tenho sede”;
6) “Está consumado”;
7) “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”:
António Pereira Torres e João Pires da Silva