Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
Arrombador de cofres e assaltante de elite, Frank (James Caan) encarna uma das figuras mais recorrentes do cinema: o homem solitário, violento, autossuficiente e em conflito com a sociedade. Metódico, ele nos é apresentado na sequência inicial em sua relação quase artística com o "ofício".
Com o apoio da trilha eletrônica e futurista do Tangerine Dream, Michael Mann filma o primeiro assalto ao banco sem focar na ideia de ação ou adrenalina, mas na divisão das etapas desse trabalho noturno. Joseph (William LaValley) está em um carro estacionado em frente ao banco, interceptando pacientemente as comunicações policiais em um rádio para ter certeza de que não correm riscos. Frank, por sua vez, corta fios, arromba fechaduras e usa uma furadeira industrial para acessar o cofre; tudo é registrado em planos-detalhe e tomadas longas do processo. Sequer descobrimos o que está sendo roubado, já que o interesse do diretor é pelo processo, e não pela recompensa.
Após o roubo, os comparsas saem tranquilamente de carro, revelando uma Chicago neon esverdeada, com uma leve garoa que insiste em fazer parte da atmosfera durante boa parte do filme.
Frank é marcado pelos abusos que sofreu durante os onze anos em que ficou na cadeia. Diz que foi criado pelo Estado, e isso é o que o tornou tão pragmático: guarda em sua carteira uma foto com uma colagem de imagens de tudo que planejou para sua vida, e a principal peça que falta é o casamento com a garçonete do café que frequenta (Tuesday Weld). Não parece, em momento algum, compreender a ideia de paixão ou afeto; apenas cumpre as "missões" que planejou com a mesma frieza com que arromba um cofre. Ela o aceita mesmo assim.
Os caminhos tortos de Frank eventualmente o levam a conhecer Leo (Robert Prosky), o gênio do crime de Chicago. Um homem quase idoso, de aparência e discurso paternais. Ele é cordial, oferece soluções e fala com uma tranquilidade reconfortante. No entanto, as escolhas de iluminação de Michael Mann revelam seu lado sinistro, ainda que suas palavras sejam encantadoras: o diretor usa bastante o underlighting para deformar sua aparência e transformar sua silhueta em algo ameaçador, antecipando que existe algo predatório nessa relação.
Frank é quase irredutível e odeia, desde o início, a ideia de se submeter a um chefe, mesmo com as promessas de ganhar milhões e de contar com a proteção constante de um mandachuva do crime. Ele acaba cedendo quando Leo consegue comprar um bebê para ele, já que sua esposa é infértil e o casal teve o pedido de adoção negado. A partir daí, Leo tem Frank em suas mãos.
É surpreendente pensar que Profissão: Ladrão seja o primeiro filme de Michael Mann. Já na primeira sequência, ele demonstra uma fluência formal e temática impressionante ao transformar o assalto em uma espécie de estudo sobre o trabalho. Frank não parece interessado no dinheiro em si, mas na precisão do processo, no domínio de uma técnica que só pertence a ele. Frank rouba porque é sua arte.