Home Cardus Edição 160, agosto 2026

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (1972)

Rainer Werner Fassbinder


“Aquele que ama, ou ama mais, é obviamente o inferior em uma relação. Isso acontece porque quem ama menos tem mais poder. Aceitar um sentimento, um amor ou uma necessidade exige uma grandeza que a maioria das pessoas não possui. É por isso que as relações costumam terminar de maneira muito desagradável.”

— Rainer Werner Fassbinder

No plano-sequência que abre As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, Fassbinder coloca essa afirmação imediatamente em cena. Petra von Kant, estilista renomada e narcisista convicta, começa seu dia sendo despertada por Marlene, jovem funcionária que executa todas as tarefas por Petra. Abre as portas, atende telefonemas, escreve as cartas e até mesmo desenha os croquis que serão assinados com o nome Von Kant. Marlene serviria até como mesa se lhe fosse solicitada, mas isso não comove sua chefe. O tratamento é hostil e autoritário, numa relação que se revela cada vez mais masoquista. Marlene é prisioneira do amor que sente por Petra.

Em meio a uma visita inesperada da irmã, Sidonie, a postura autossuficiente e impiedosa de Petra muda completamente; ela é apresentada à jovem Karin, pela qual se apaixona perdidamente à primeira vista. Acostumada a transformar todo afeto em uma relação de domínio, Petra acredita que poderá fazer o mesmo com Karin. Ela até consegue comprar um relacionamento com a jovem, mas vive atormentada pela própria paixão que nunca é correspondida à altura.

Fassbinder dirige de maneira teatral, em que o enorme quarto de Petra funciona como palco. Em cinco atos bem divididos, a mise-en-scène representa com densidade o mundo e o estado mental da protagonista, bem como a forma que as mulheres ao seu redor interagem dentro e a partir dele. O caos já é sugerido pela artificialidade dos corpos espalhados e destacados por Fassbinder; manequins, bonecas e a enorme pintura Baco e Midas, de Nicolas Poussin, fazem com que o quarto esteja sempre congestionado, criando um visual que, embora claustrofóbico, se mantém extremamente elegante.

Pedro

A pintura Baco e Midas, de Nicolas Poussin, carrega consigo uma síntese do simbolismo do filme. Embora seja um elenco totalmente feminino, a parede central revela com grandiosidade a figura de homens nus. Tudo gira em torno de um romance sáfico, mas os dilemas nunca deixam de passar pelas figuras masculinas. Sejam relacionamentos passados, desejos existentes ou a simples culpa resultante da homossexualidade, a figura do homem é fundamental mesmo sem fazer sua presença necessária. A pintura por si só mostra o rei Midas ajoelhado, implorando para que o deus Baco lhe conceda o dom de transformar tudo o que toca em ouro. É tão complexa a figura de Petra von Kant que é difícil até conjecturar o significado da pintura em seu contexto. Ela pode representar um desejo de ser como Midas, em uma identificação com sua ganância, mas também o fascínio pelas relações de poder e submissão.